A demissão do britânico Steve Easterbrook da presidência-executiva do McDonald’s levanta uma questão muito importante: as empresas podem afastar funcionários por se relacionarem com colegas de trabalho? O caso de Easterbrook é simbólico, já que a política interna do McDonald’s proíbe que funcionários de níveis mais altos se relacionem com seus subordinados. Como era o CEO, o executivo não podia namorar nenhum outro empregado da empresa, já que todos estavam subordinados a ele.

O 6 Minutos ouviu especialistas em recursos humanos e legislação trabalhista para saber como funciona essa questão dentro do mundo corporativo. Do ponto de vista jurídico, proibir o namoro entre empregados é polêmico. Por outro lado, é comum que empresas criem regras internas (código interno, norma de conduta, política de compliance) para regular esse temaa. Veja abaixo o que eles disseram.

O que diz a lei sobre namoro dentro da empresa

Essa é uma questão polêmica. Fernanda Borges, sócia sênior da área trabalhista no Focaccia, Amaral e Lamonica Sociedade de Advogados, diz que não existe uma legislação específica sobre o que pode ou não entrar nas normas de conduta das companhias.

“Como não tem uma lei específica, esse tema é muito polêmico. A norma interna é um acordo entre partes e válido dentro daquele ambiente”, afirma a advogada.

Já a advogada Marília Minicucci, do escritório Chiode Minicucci, diz que a proibição é inconstitucional por violar o artigo 5º, inciso X da Constituição Federal, que afirma que “são invioláveis a intimidade e a vida privada das pessoas”.

Segundo ela, esse tipo de proibição é comum em empresas estrangeiras e ganhou força após os inúmeros casos de denúncias de assédio sexual. Vale lembrar que casos de assédio, quando comprovados, são cabíveis de dispensa por justa causa.

O que acontece de verdade dentro das companhias

Na prática, muitas companhias incluem dentro de seus códigos internos proibições ao relacionamento entre funcionários. Algumas proíbem o namoro em qualquer nível hierárquico, enquanto outras apenas quando há subordinação, ou seja, um não pode ser chefe do outro.

Um executivo de uma grande empresa de recrutamento diz que o objetivo desse tipo de restrição é evitar saias-justas no ambiente de trabalho. O temor é que o relacionamento interfira nas decisões dos líderes. “Se ele tiver um relacionamento com alguém da equipe e quiser promover essa pessoa, será que será uma decisão 100% profissional? Mesmo que seja, como fica o clima dentro da empresa com essa situação?”, diz esse executivo.

Segundo esse profissional, empresas que proíbem o namoro precisam deixar isso bem claro para os funcionários. Pois um problema comum nas corporações é a falta de transparência e divulgação das  regras do manual de conduta.

Para Coralli Rios, diretora jurídica da Adecco, empresa de recrutamento, a melhor opção é não proibir o namoro entre funcionários. “O ideal é estabelecer limites através de políticas internas, bem como informar o empregado sobre a conduta e passos a serem tomados nesses casos, como comunicar ao gestor e ao RH o relacionamento.”

Segundo ela, a legislação não prevê a demissão por justa causa por motivo de namoro com o colega de trabalho. “Cabe aos empregados ter uma postura adequada no ambiente de trabalho evitando demonstrações exageradas de afeto, mantendo seu relacionamento fora da empresa”, diz a profissional.

Mas Rios acredita que é possível conciliar trabalho e amor. “Existem os dois lados, o dos empregados e o dos empregadores. O empregado não quer perder seu emprego por ter se apaixonado por um colega de trabalho, e a empresa também não quer que a conduta de um empregado atrapalhe a produtividade, resultados e políticas. É perfeitamente possível conciliar os interesses dos envolvidos quando há racionalidade e proporcionalidade de ambos os lados.”

Mas vale a pena?

A Glassdoor, ex-Love Mondays, fez um manual sobre relacionamento dentro do trabalho. Veja algumas:

  • Não namore seu chefe: A situação pode ficar tensa e a maioria das empresas proíbe esse tipo de relacionamento (entre superior e subordinado).
  • Não namore para subir de cargo: Essa, definitivamente, não é uma estratégia de carreira
  • Vá com calma
  • Seja realista: Mesmo que você esteja feliz e apaixonado, tenha em mente que não há garantias de que o relacionamento será para sempre. Se vocês terminarem, você vai dar conta de continuar trabalhando na mesma empresa do ex?
  • Informe-se sobre a política interna da empresa: Veja se a empresa em que trabalha proíbe namoro entre colegas. Se proibir, vale a pena coloca em risco seu emprego por um amor?
  • Seja discreto: Evite demonstrações explícitas de afeto dentro do ambiente de trabalho
  • Informe seu chefe: Mesmo que opte por manter seu relacionamento secreto, informe seu gestor. É melhor saber por você do que por outros
  • Seja profissional: Não use o e-mail e outras ferramentas de comunicação interna para namorar. Seu tempo dentro da empresa é para trabalhar
  • Não saia contando para todo mundo: Ninguém precisa saber que vocês discutiram na noite passada.
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