Imagina que você é uma startup e recebeu um aporte de recursos que te permite dobrar de tamanho. Da noite para o dia, precisará contratar centenas de profissionais para dar conta do plano de expansão. Mas vai trombar com um problema inimaginável em um país com uma taxa de desemprego tão alta: a falta de mão de obra especializada em tecnologia.

Por que isso acontece? A conta simplesmente não fecha. O Brasil precisa contratar 70 mil novos profissionais de TI (tecnologia da informação) por ano até 2024, segundo a Brasscom (Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação). Mas o país forma apenas 46 mil pessoas nessa área a cada 12 meses.

Qual a solução imediata para esse vazio de profissionais? Muitas companhias abriram mão da exigência do diploma de nível superior para contratar seus profissionais. Mais do que um canudo, as empresas estão valorizando o conhecimento técnico.

Que setor vem crescendo na esteira dessa falta de mão de obra? Uma consequência do aquecimento desse mercado é a proliferação de cursos livres de programação, ciências de dados e marketing digital. Muitas empresas vão até essas escolas em busca de profissionais para preencher as vagas que estão abertas. Esse é o caso da Digital House e da Trybe.

Essa flexibilidade na hora de contratar vale para todo tipo de empresa? Não. Ricardo Rocha, diretor-executivo da Spring, diz que essa tendência começou nos Estados Unidos e começou a ser adotada no Brasil mais por startups e empresas de tecnologia. “São empresas que crescem muito rapidamente e têm uma necessidade grande de desenvolvedores e programadores para continuar se expandindo. Mas o mercado não forma profissionais na velocidade que essas companhias precisam”, diz Rocha.

Por que essa exigência caiu? Por uma série de motivos. Um deles é que as empresas buscam ambientes mais diversos com profissionais de diferentes perfis. E se todo mundo tiver saído da mesma faculdade, o perfil dentro das companhias será o mesmo. Outro motivo que virou meio consenso é que as tecnologias mudam muito rapidamente e as faculdades não dão conta de incorporar as novidades em seus currículos.

“Mudou muito o modelo de formação do profissional. Hoje, as pessoas se especializam de diversas maneiras, não precisam necessariamente ter ido para uma faculdade específica. Elas podem fazer um curso online, uma pós, um EAD (ensino à distância). A internet facilitou muito essa formação e especialização”, diz Luana Castro, gerente da área de TI da Michael Page.

Segundo ela, o curso de ensino superior não garante o conhecimento técnico necessário que as empresas precisam para seu dia a dia. “Nem sempre os cursos superiores conseguem ensinar as tecnologias que os profissionais vão precisar usar quando se formarem.”

Como mercado de recrutamento faz para encontrar esses profissionais? A Michael Page, por exemplo, tem parcerias com escolas que oferecem cursos livres de tecnologia, como a Digital House. “Auxiliamos os clientes a buscar profissionais dentro das escolas, gente que ainda está se formando”, diz Luana.

O que as empresas olham na hora de contratar esses profissionais? O foco na hora de contratar é o conhecimento técnico. “As companhias olham para os cursos e certificações que a pessoa tirou nos últimos anos. Elas olham para as tecnologias que o profissional domina. Tem conhecimento que não se aprende na faculdade”, diz Luana.

Isso significa que não precisa mais ter diploma de ensino superior? Não é bem assim. O diploma deixou de ser uma trava na hora de selecionar ou barrar um candidato. Mas se houver dois candidatos com perfil e nível de conhecimento idênticos, o que tiver diploma vai ter vantagem. “O diploma faz diferença na hora de comparar. Acontece que ele deixou de ser uma nota de corte. Antes, o profissional sem nível superior nem entrava no processo seletivo, não passava na peneira”, afirma Rocha.

Além disso, segundo Rocha, a experiência da faculdade ajuda o profissional a dominar as soft skills que o mercado exigirá dele depois de contratado. “A faculdade ajuda o futuro profissional a lidar com o lado emocional das relações no trabalho.”

Como funciona isso na prática? Fundada em 2016, a Digital House já formou 2.000 pessoas em seus diversos cursos de especialização. Entre os mais procurados está o de ciência de dados, que custa cerca de R$ 14.500. Edney Souza, diretor acadêmico da Digital House, diz que 90% dos alunos da instituição terminam o curso já contratados.

Esse tipo de curso é para qualquer um? Souza diz que não, pois o curso é bem difícil e há um teste para avaliar se o nível de conhecimento do interessado. “O curso de ciência de dados é muito procurado porque o salário inicial é alto. Mas não é um curso fácil. Tem que passar por uma avaliação e conhecer estatística. O curso tem estatística muito avançada, algoritmo e machine learning”, diz Souza.

E quem não tem dinheiro para pagar um curso desse? Calma, o mercado está aquecido também na área de cursos livres. A escola Trybe trabalha com uma proposta diferenciada de cobrança: o aluno só começa a pagar depois de encontrar um trabalho. E não é qualquer trabalho, tem de pagar no mínimo R$ 3.500 por mês.

Quais são os cursos da Trybe e qual a carga horária? Por enquanto, a empresa está focada em curso de desenvolvimento de software. A carga é de 1.440 horas, divididas em seis horas diárias, de segunda a sexta-feira.

Como assim não paga? O curso da Trybe pode ser pago no período de dois até cinco anos. Para quem optar por dois anos, são 12 parcelas de R$ 2.000. Para quem esperar para pagar depois de arrumar um emprego com salário superior a R$ 3.500, o curso sobe para R$ 36.000 e pode ser pago em até cinco anos. O desconto máximo é de 17% do salário mensal.

Quais os planos de expansão da Trybe? A escola tem unidades nas cidades de Belo Horizonte, São Paulo, Florianópolis e Itajubá. O plano é abrir novas unidades em mais cidades do país, além de permitir o ensino à distância. “Hoje em dia, saber é mais importante do que ter diploma. A carência de profissionais de TI é muito maior, pois as empresas deixam de abrir vagas por falta de mão de obra”, diz o CEO da Trybe, Matheus Goyas.

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