Entregadores de aplicativos como iFood, Rappi e Uber Eats passam o dia rodando a cidade para ganhar menos de R$ 50, segundo relatos postados em um grupo da categoria nas redes sociais. Nos dias bons, os ganhos podem passar de R$ 100. Mas para chegar neste valor é preciso passar mais de 12 horas na rua entregando pedidos de restaurantes, farmácias e supermercados.

Quem trabalha com esse tipo de serviço enfrenta outro problema: não sabe quanto vai receber ao final do dia. Tudo depende da quantidade de pedidos entregues. “Vai ter dia que ganha R$ 50 só no almoço e outro em que não vai tocar nenhuma vez”, disse um entregador. “Vai ter dia que vai ter 10 corridas, outros com cinco. Isso varia muito do dia, da demanda de pedidos, do número de entregadores. Então é tudo muito relativo”, contou outro.

Existe ainda outra variável: os ganhos dependem do meio utilizado para fazer entrega: quem usa moto recebe mais do que quem utiliza bike. A lógica é que de moto dá para finalizar mais pedidos.

Falta de condições adequadas

No período em que estão trabalhando, esses entregadores têm poucos pontos de apoio para recarregar o celular, ir ao banheiro, comer, beber e até aguardar o próximo pedido. Por isso é comum que eles se aglomerem em ruas próximas a shopping centers, restaurantes e estacionamentos de supermercados. O local de descanso, nessas situações, é a calçada ou em cima da moto mesmo. A preferência por esses lugares tem até uma explicação relacionada à segurança: como alguns carregam dinheiro, se sentem mais seguro em grupo.

Além de ser uma situação insalubre para entregadores, a aglomeração na porta dos estabelecimentos desagrada os donos de comércios, que temem perder consumidores que esperam encontrar entradas livres quando vão às compras.

Para oferecer o mínimo de conveniência, algumas empresas de aplicativos oferecem pontos de apoio para os entregadores – caso da Rappi. O problema é que os Rappi Points, como esses locais são chamados, ainda são poucos (apenas quatro) e não oferecem o que pode se chamar de conforto: funcionam em espécies de containers localizados em estacionamentos de shoppings. Esses locais contam com banheiro, bebedouro, microondas e local para descanso. Também dá para recarregar o celular nesses pontos de apoio.

Rappi Point

Existem quantos entregadores de aplicativos? Não existem números oficiais. O iFood contabiliza 80 mil parceiros que trabalham sem horário fixo. Mas existem outros 200 mil que prestam serviços para restaurantes e que podem ser acionados pelo iFood em caso de demanda. Já o Rappi conta 200 mil entregadores. Não dá para somar os 200 mil do Rappi com os 80 mil do iFood, pois um mesmo entregador pode trabalhar para vários aplicativos. O Uber Eats não deu seus números.

Existem quantos Rappi Point? São quatro na cidade de São Paulo. Serão lançados outros em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife e Porto Alegre.

E os que os outros apps oferecem para os entregadores? Por enquanto, o iFood não disponibiliza nenhum ponto de descanso para seus entregadores. “A empresa está avaliando diferentes formatos de pontos de descanso para parceiros de entrega. Novos projetos e atualizações serão comunicadas em momento oportuno”, diz a empresa.

A Uber informou que possui 80 centrais de atendimento espalhadas pelo país que são usadas pelos motoristas e entregadores parceiros para tomar água, café, ir ao banheiro.

Iniciativas como essa são suficientes? Para Guilherme Feliciano, especialista em direito do trabalho, e autor do livro Infoproletários e a Uberização do Trabalho, é preciso garantir o mínimo de segurança e condições de trabalho para esse público. “A Constituição prevê que todo trabalhador tem direito à redução dos riscos inerentes ao trabalho. Esses entregadores, que trabalham com jornadas extenuantes, não têm esse direito assegurado.”

Isso se resolveria com o reconhecimento do vínculo empregatício? Feliciano diz que o direito a condições adequadas de trabalho independe do vínculo. “O reconhecimento do vínculo, a meu ver, depende de cada caso. Mas o direito ao trabalho adequado é direito de todos.”

E o que seria esse trabalho adequado? Para Feliciano, existem três pontos que poderiam ser discutidos para melhorar as condições de quem trabalha para aplicativo:

  • Garantir uma remuneração mínima: “Até os caminhoneiros fizeram greve para reivindicar uma tabela de frete mínimo. É preciso garantir um mínimo para a subsistência e que garanta o direito ao descanso”, defende Feliciano
  • Garantir uma condição mínima de desconexão: Esse ponto está diretamente relacionado ao primeiro. “Se a pessoa se desconecta, ela não ganha. Então ele não se desconecta, trabalha o máximo de horas que consegue, todos os dias, sem direito a um mínimo de descanso, o que coloca em risco a sua segurança”, diz o especialista.
  • Oferecer condições dignas de saúde e segurança para o exercício da profissão: Não basta oferecer a bag (bolsa térmica), camiseta com proteção solar ou jaqueta. Feliciano diz que esses trabalhadores precisam de condições adequadas para esperar o pedido. Os pontos de apoio são o mínimo que se pode oferecer.

O que dizem as empresas? A Rappi disse que não dá para medir a remuneração, pois o valor “varia de acordo com o clima, dia da semana, horário, zona da entrega, distância percorrida e complexidade do pedido”. “Além disso, a Rappi possibilita que os clientes deem gorjeta aos entregadores por meio do aplicativo – o que fica a critério de cada consumidor”, afirma a empresa.

O iFood também não divulga horas médias trabalhadas nem valor médio pago, pois as variáveis de pagamento são as mesmas citadas pela Rappi. Entre os fatores que podem interferir no valor está a rota percorrida, por exemplo.

Qual o perfil do entregador? Pesquisa da FIA para associação de aplicativos de entrega traçou no começo de 2019 um perfil  desse público:

Idade média29 anos
Escolaridade74,3% têm ensino médio
Gênero97,4% são homens
Tempo trabalhado4 horas diárias
Atrativo para o trabalho96% citaram a flexibilidade de horário

 

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