O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que acompanha o reajuste de preços dos itens de consumo dos brasileiros, revelou em abril uma variação negativa de 0,31%. Isso significa que houve deflação — ou seja, na média, os produtos baratearam ao invés de encarecer. Mas como essa deflação se traduz no nosso dia-a-dia?

Por que houve deflação? O resultado detalhado do índice mostrou que os principais responsáveis por essa variação negativa foram os combustíveis. O etanol ficou 13% mais barato em abril, e a gasolina caiu 9%. A crise no mercado internacional de petróleo causou uma queda no preço da matéria prima da gasolina, o que, somado à queda na demanda, também forçou uma redução no valor do etanol.

Esses dois itens têm alta participação no segmento de transportes, que por sua vez tem um peso de 20% no IPCA. “Como os combustíveis tiveram uma variação grande para baixo, o impacto no índice é relevante. A questão é que muitas pessoas não estão usando o carro durante a pandemia. Se desconsideramos o peso da gasolina, não houve deflação no mês passado”, pontua Julia Braga, professora de economia da UFF (Universidade Federal Fluminense).

Como assim? Ao contrário dos combustíveis, que têm sido menos relevantes no orçamento familiar durante a pandemia, outros itens essenciais ficaram mais caros no mês passado. O grupo de alimentação, por exemplo, registrou alta de 1,9%. Esse é o segundo segmento mais representativo do IPCA, com peso de 19%.

Enquanto a inflação média foi de -0,31%, e as refeições em casa ficaram 2,2% mais caras no mês passado. O gás de botijão subiu 0,23%, o aluguel avançou 0,18% e o condomínio teve alta de 0,38%. A taxa de água e esgoto encareceu 0,21% — possivelmente influenciada por um consumo maior de água em casa.

O que isso significa? Em um exercício, a professora da UFF excluiu os produtos e serviços menos demandados durante a quarentena e aumentou o peso dos que são mais necessários. A conta foi a seguinte:

  • Itens como serviços (cabeleireiro, manicure, barbeiro), combustíveis e passagens aéreas foram excluídos.
  • Itens como aluguel, condomínio, energia elétrica, alimentação em casa, comunicação e transporte público foram mantidos.
  • Foi feita uma nova ponderação aumentando o peso dos itens que foram mantidos, para chegar a um índice médio

Com base nessas premissas, os preços teriam subido 0,55% em abril — aqui estamos falando de inflação, e não deflação. “Não se trata de criar um novo índice, mas sim avaliar o impacto da variação para o poder de compra dos trabalhadores. O fato é que a deflação ainda não está sendo sentida pelas famílias, principalmente para as mais pobres”, pontua a professora da UFF.

Por que os mais pobres são afetados de forma mais intensa pela inflação dos itens essenciais? Julia Braga explica que o peso dos alimentos e da moradia é maior para as famílias de menor renda, e que os custos com combustíveis, por exemplo, ficam em segundo plano ou sequer existem, pela falta de veículo próprio. Além disso, a crise causada pelo coronavírus tem reduzido a renda dessas famílias, tornando os itens essenciais ainda mais representativos.

Como o IPCA é calculado? Em tempos de mudança brusca de hábitos de consumo, como a causada pela pandemia, economistas costumam se debruçar sobre o cálculo do índice oficial de inflação. André Braz, coordenador do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da FGV, explica que o peso de cada item no índice geral é determinado pela POF (Pesquisa de Orçamento Familiar), feita pelo IBGE.

Essa pesquisa é realizada uma vez por ano, e cobre o comportamento de consumo das famílias por um longo período. Isso acontece justamente para que mudanças sazonais não influenciem o resultado final. Por exemplo: as despesas com energia elétrica são maiores no verão, por causa do consumo maior. Se somente esse período do ano fosse analisado, a conta de luz teria um peso maior que o devido no IPCA.

“Não temos tecnologia para fazer uma POF rápida e abrangente. Se estivéssemos acompanhando mensalmente o orçamento familiar seria possível fazer uma ponderação nova para a inflação. Mas isso não existe, infelizmente”, diz Braz.

O coordenador do IPC lembra que embora os alimentos estejam ficando mais caros, por causa de uma alta na demanda, os chamados preços administrados estão congelados. Aqui estamos falando de tarifas de ônibus e metrô, energia elétrica, telefonia etc. “Embora os alimentos tenham subido bastante, os outros itens, que compõem 80% do IPCA, levaram a inflação para o terreno negativo”, diz ele.

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