A reconquista dos 100 mil pontos do Ibovespa trouxe de volta o clima otimista à bolsa de valores brasileira, mas os investidores logo descobrirão que a próxima fase da jornada de recuperação será cheia de campos minados. Nesta semana começa a temporada de divulgação de resultados de empresas nos Estados Unidos e na Europa. O desempenho das empresas no exterior deverá ser crucial para os rumos das ações brasileiras.

O que uma coisa tem a ver com a outra? A divulgação atual de resultados é referente ao segundo trimestre de 2020. Espera-se que os piores impactos da pandemia do coronavírus tenham acontecido nessa janela de tempo. Por isso, é grande a expectativa para saber, de fato, qual foi o estrago da doença no resultado das maiores empresas listadas nas bolsas.

“Muitos analistas fizeram projeções totalmente no escuro, porque esta é uma crise inédita. Os próximos dias vão dizer se o fundo do poço foi tão fundo assim, e vão indicar se o pior já ficou pra trás”, diz Henrique Esteter, analista da corretora Guide.

No Brasil, os balanços mais importantes só serão divulgados a partir da segunda quinzena do mês. Até lá, a bússola do mercado brasileiro deve ser o desempenho das empresas do exterior, especialmente a de setores que foram mais atingidos pela pandemia. Além disso, o Ibovespa já tem seguido bem de perto o resultado dos índices acionários americanos — a correlação entre os dois mercados é a maior desde 2008, como explicamos nessa matéria.

Mas os mercados financeiros já não tinham precificado o momento ruim? Sim, o mergulho nos índices ainda lá em março e abril mostram que os investidores se anteciparam ao pior. Porém, todo esse movimento foi executado em meio a uma boa dose de incerteza — ninguém sabia bem se o risco estava sendo bem mensurado, e o que aconteceria a seguir.

É possível que haja, então, alguma correção agora, com os resultados já divulgados. Se essa correção vai ser para cima ou para baixo só os números vão dizer. “Na teoria, os balanços não deveriam fazer tanto preço, porque a crise já foi precificada meses atrás. Mas se vier abaixo do esperado pode, sim, dar susto. Por outro lado, se for algo muito melhor, pode dar um ânimo aos índices”, projeta Esteter, da Guide.

Dizer que tudo pode acontecer é o jeito mais fácil de acertar qualquer previsão financeira, mas esse é um clichê que está, mais do que nunca, valendo.

Começamos com o pé direito essa temporada? Pode-se dizer que sim. De manhã, a PepsiCo deu a largada à atual temporada de grandes balanços, e o desempenho melhor que o esperado animou o mercado. A empresa de bebidas e alimentos registrou uma queda de 19% nos lucros — resultado ainda negativo, mas bem melhor que as estimativas feitas pelos analistas.

Esse diagnóstico de “foi ruim, mas foi bom” fez com que os índices acionários americanos passassem boa parte do dia no azul, empurrados também por boas notícias em relação às vacinas contra o coronavírus.

Quais setores devem ficar no radar dos investidores? Nos próximos dias teremos alguns dos mais importantes bancos americanos divulgando seus resultados. Amanhã (dia 14), será a vez do JPMorgan e do Citi, na quarta-feira (dia 15) o Goldman Sachs reportará seu desempenho do segundo trimestre, e na quinta serão os bancos Morgan Stanley e Bank of America. O setor financeiro é considerado chave para entender como o vírus impactou a economia.

Isso porque os bancos são o segundo elo na cadeia de liquidez. O primeiro são os Bancos Centrais, que fizeram injeções massivas de recursos para estimular o financiamento das empresas, mantendo os negócios de pé. Os balanços dos bancos devem mostrar se essa liquidez se traduziu em um aumento na carteira de crédito — ou seja, se mais dinheiro chegou à economia real.

Depois, e não menos importante, o resultado do segundo trimestre deve indicar o volume de perdas dos bancos em razão do coronavírus. “Os bancos fizeram provisões importantes no primeiro trimestre, quando a pandemia estava só começando. Qualquer provisão extra também será um sinal de alerta”, pontua o analista da Guide.

O segundo setor que deve ser olhado de perto é o de companhias aéreas. Amanhã (dia 14) a empresa Delta Airlines deve divulgar o seu balanço do segundo trimestre, e os números são bastante esperados. “O impacto nas companhias aéreas brasileiras ainda é uma grande incógnita, então os resultados das empresas americanas devem dar algum norte para a situação daqui”, prevê Esteter.

Também nesta terça-feira será a vez da Netflix divulgar seus números. É provável que a empresa tenha sido afetada positivamente pela pandemia, já que mais pessoas passaram a ficar em casa e a assinatura de streamings aumentou. Pelo peso da empresa, o possível bom resultado deve dar ânimo às outras empresas de tecnologia americana.

No final da semana, algumas petroleiras e empresas de mineração também vão divulgar seus resultados preliminares, o que deve ser um bom balizador para o desempenho das ações da Vale e da Petrobras, que têm um peso grande no Ibovespa.

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