A quarentena imposta pela pandemia do coronavírus alterou muitos dos nossos hábitos de consumo. A mudança do estilo de vida e o próprio receio do futuro tornou grande parte dos brasileiros mais austeros. Em outras palavras: está todo mundo apertando os cintos.

Para o azar das varejistas de vestuário e calçados, ninguém precisa comprar cintos novos para apertá-los na crise. Prejudicadas pelo fechamento de lojas físicas, as empresas de moda estão, ainda, diante do desafio de ter que encontrar estratégias para vender itens considerados supérfluos. “As pessoas estão ficando em casa, então vão se vestir pra quem exatamente?”, questiona Lilyan Berlim, professora de moda sustentável e pesquisadora do ReLab da ESPM.

Ela diz que o medo e a insegurança em relação ao futuro estão gerando uma cultura de sobrevivência e de valorização do que é essencial: alimentação, moradia e saúde. “Ninguém precisa comprar roupa e sapato. Nós compramos por outras questões, e não por necessidade”, diz ela.

O pijama virou moda?

Já que sair de casa não tem sido um hábito diário para parte dos brasileiros, a moda agora é tentar vestir quem está em quarentena. Marcas como Renner e Hering criaram em seus sites categorias especiais de roupas confortáveis — e aqui não estamos falando só do bom e velho pijama.

São moletons, camisetas de algodão e outras peças básicas que trazem o conforto que a rotina em casa exige. “Tem gente que tinha hábitos tão externos, que só agora percebeu que não tem tantas roupas para ficar em casa”, diz Berlim, da ESPM. Ela lembra que o pijama não conta para essa função, porque o home office requer, muitas vezes, reuniões em vídeo — e aparecer com o look de dormir não é nada profissional.

As lojas que já dedicavam-se exclusivamente às roupas que foram feitas para “não aparecer” ou para ficar em casa estão tentando reforçar essa estratégia. É o caso da Hope, Lupo e Loungerie — todas de moda íntima.

O varejo de moda vai sobreviver?

Dados dos Estados Unidos mostram que a intenção de compra de roupas e calçados já caiu 70% desde o início da pandemia. Essa quebra atinge o setor como um todo, mas tende a vitimar os pequenos lojistas mais rapidamente — em especial aqueles que não vendem pela internet e dependem exclusivamente das lojas físicas.

Dados da consultoria internacional de dados Euromonitor mostram que, no ano passado, menos de 6% do faturamento do varejo de moda brasileiro veio do e-commerce. As lojas físicas faturaram R$ 108 bilhões, enquanto as lojas on-line ficaram com apenas R$ 6,1 bilhões. “Quem tem uma plataforma digital estabelecia e robusta está sofrendo menos”, diz a professora da ESPM.

No entanto, ela diz que a grande maioria das lojas não embarcou na digitalização das vendas, nem mesmo pelos canais mais democráticos, como as redes sociais ou as plataformas abertas de venda, como o Mercado Livre.

O pós-pandemia

Os números indicam que o declínio no consumo de itens de moda só começou, e que a queda de produção deve levar a um desemprego recorde no varejo e nas confecções. “Eu sou cética em relação a essa tese de uma recuperação rápida do consumo depois da pandemia. A crise econômica que está por vir deve continuar reduzindo a demanda por itens não-essenciais, e teremos uma geração que pensará como a geração do pós-guerra”, diz Berlim, da ESPM.

A professora de moda sustentável reforça, ainda, que mesmo quando a quarentena acabar, as medidas de isolamento social devem ficar no nosso dia-a-dia por um tempo. Sendo assim, ocasiões que antes levavam à compra de roupas também não devem voltar a acontecer. “Se eu pretendia comprar uma roupa para ir a um casamento, mas não vai ter mais essa festa, então eu vou comprar para quê? Não tem motivo”, explica.

Como ficam as grandes lojas?

Os dados da Euromonitor mostram que as líderes de vendas são as marcas Renner (com uma participação de 7,3%), Riachuelo (5,3%) e C&A (5,3%). O fato de as maiores varejistas representarem juntas menos de 20% de todo o faturamento das lojas físicas mostra como é pulverizado o segmento de moda no Brasil.

Embora essas marcas tenham mais estrutura digital e financeira para enfrentar a crise, elas devem ser baqueadas pelos hábitos mais comedidos da classe média. “As classes A e B vão continuar consumindo luxo. Nem mesmo na crise elas passarão a comprar roupas das lojas de departamento”, destaca Berlim, da ESPM.

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