Poucos brasileiros ganharam o Eisner Awards, o Oscar dos quadrinhos norte-americanos. O paulistano Marcelo D’Salete, 40, é um deles. E por uma obra (“Cumbe”) que retrata um tema bem nacional: a escravidão que existiu por aqui no sistema colonial. Não dá para ler uma obra como essa sem refletir sobre o racismo e a situação da população negra no Brasil de hoje.

“Falar sobre racismo e história de negros no Brasil não é simples nem fácil”, diz D’Salete. “Somos resultado de uma história de violências e apagamentos”, afirma.

Seus álbuns abordam quem está à margem: “Cumbe” saiu em 2014. Depois dele veio o também premiado “Angola Janga – Uma História de Palmares”, sobre a vida no importante quilombo. E já está em pré-venda uma edição de “Discurso sobre o Colonialismo”, lançado em 1950 pelo pensador francês Aimé Césaire, com ilustrações de D’Salete.

Ao 6 Minutos, o artista falou sobre racismo, história do Brasil, representação dos negros nas artes e histórias em quadrinhos. Confira os principais trechos da entrevista.

Para um país com a população negra do tamanho da nossa, é surpreendente o quanto é baixa a quantidade de negros representados na nossa cultura. Dentro dos quadrinhos ou fora deles (novela, por exemplo), em que momentos você se sentiu representado?
Na década de 80 e 90, havia pouquíssimos personagens negros em novelas e propagandas. Era uma ausência enorme. E quando aparecia, era apenas para reforçar certos estereótipos. Isso mudou um pouco a partir dos anos 2000, essa estética de atores e personagens negros em propaganda, e um pouco em novela, com cabelo crespo e enrolado. Até os anos 90, era inimaginável.

Ainda hoje, somos reféns a uma forma de ver que recorre ainda a velhos estereótipos, continuando uma certa perversidade do olhar que era de um século atrás. Em 2004 havia a novela “Da Cor do Pecado”, uma das primeiras com uma atriz negra como protagonista. O próprio título da novela já diz tudo: a partir de quem você pensa em uma frase sobre essa? Relacionar a mulher negra com a cor do “pecado” só tem sentido para o homem branco.

Capa de Cumbe, obra do quadrinista Mrcelo D´Salete

Capa de Cumbe, obra do quadrinista Marcelo D´Salete

O próprio título da novela apresenta uma perspectiva que não é de uma família negra, mas a de um homem branco sobre aquela mulher negra, que vai remeter a toda uma história de violência e estupros do Brasil colonial. Às vezes, temos uma atualização de certas formas de ver extremamente perigosas e dentro de uma mídia extremamente popular, como uma novela.

No caso dos quadrinhos, acho que o primeiro trabalho em que vi que tinha algo que me interessava, que era um pouco essa perspectiva de grupos negros organizados das últimas décadas, foi no trabalho do [jornalista, publicitário, escritor e cartunista paulista] Maurício Pestana. Ele traz uma crítica social principalmente nas charges dele, extremamente contundentes e fortes, e a partir da perspectiva dessas discussões que estavam rolando no movimento negro nos anos 70 e 80. Aquilo para mim foi revelador.

A que se deve, em sua opinião, essa presença tão baixa da representatividade do negro nas nossas artes?
Somos resultado de uma história de violências e apagamentos do período colonial, imperial, até a república. Dentro dessa história, a população negra vem para o Brasil em uma condição extremamente brutal: a da escravidão. Essas pessoas não eram consideradas pessoas, mas coisas.

De certo modo, talvez não tenhamos rompido com essa lógica. Essa violência, que estava marcada no corpo da população negra, continuou. Não é somente uma violência que atinge fisicamente o corpo. É também uma violência simbólica: não se deixa aquele grupo ter história. O racismo estrutural tenta impedir os grupos negros de pensar a sua história para além do que permite o grupo dominante – normalmente, homens brancos. É como se o negro não tivesse autorização para falar dele mesmo.

Nós tivemos diversos artistas negros na nossa história, mas eles não conseguiam furar o bloqueio e chegar num público mais amplo a menos que retirassem boa parte do seu pertencimento étnico-racial. Foi isso o que aconteceu com Machado de Assis. Ele foi aceito dentro da literatura, quando estava vivo, mas isso não impediu que fosse atacado por outros escritores por ser negro. E nos livros de história e literatura, como a gente bem sabe, ele foi muitas vezes embranquecido nas fotografias, para não evidenciar que ele é um escritor negro.

Penso que há, sim, uma barreira dentro do sistema editorial, de crítica, de leitores, que filtra os autores que chegam ao grande público. Essa barreira acaba filtrando autores que trazem discussões que eles consideram possíveis para o grande público. As discussões falando de histórias negras e de problemas que acometem o Brasil como um todo – e em grande parte a população negra – muitas vezes foram alijadas desse processo, como o tema do racismo. O conceito de democracia racial, por exemplo, foi uma das principais estratégias da elite dominante para cercear, desvalorizar e coibir qualquer discussão sobre racismo e discriminação.

Moradores da periferia e/ou à margem da sociedade aparecem em “Noite Luz” e “Encruzilhada” [primeiros livros do artista]. O período escravagista da história brasileira é muito bem retratado em “Cumbe” e “Angola Janga”. Como você seleciona os temas que vai abordar em suas histórias?
Quando eu comecei a ler um pouco mais de história do Brasil e da história da população negra no Brasil, comecei a ter dimensão da quantidade de histórias, narrativas e personagens que a gente tem, em grande parte personagens negros, que a gente desconhece. A partir disso, fui desenvolvendo essas histórias em um formato que tenho interesse, e algum domínio, que são os quadrinhos.

Você já ganhou prêmios internacionais por seu trabalho – Eisner Awards é o mais famoso; deles. Foi preciso o reconhecimento lá fora para ter destaque aqui dentro?
O primeiro reconhecimento foi aqui no Brasil: o Prêmio Grampo Ouro. Imagino que a premiação no exterior tenha chamado bastante atenção para o “Cumbe”, tanto dentro como fora no Brasil. Eu havia acabado de lançar o “Angola Janga”… Creio que esses dois livros ficaram bem em evidência. A premiação lá fora repercutiu positivamente aqui no Brasil, em termos de chegar a um público maior.
Tanto “Cumbe” como “Angola Janga” tiveram uma ótima acolhida no momento dos seus lançamentos. Isso foi potencializado ainda mais depois da premiação.

Falar sobre racismo e sobre o negro na sociedade brasileira… São temas que abrem ou fecham as portas no Brasil?
Falar sobre racismo e história de negros no Brasil não é simples nem fácil. Mas imagino que temos, no Brasil, um público muito interessado em conhecer mais sobre essa história justamente devido ao vazio sobre o assunto.

Acho que esse público tem se expandido bastante nos últimos anos. Então, não diria que é um tema que hoje fecha portas. Acho que, quando é bem realizado, há um público interessado em conhecer essas histórias.

Mas é claro que é preciso pensar muito bem na forma como você vai tratar esse tema, seu modo de contar, bem como no tema que você escolhe.

“Falar sobre racismo e história de negros no Brasil não é simples nem fácil”. Por que não é fácil? O que atrapalha?
É possível falar sobre racismo, mas nem sempre essa fala tem ressonância na sociedade brasileira devido a estratégias históricas de silenciamento e violência da população negra.

Vi que já está em pré-venda o livro “Discurso sobre o Colonialismo”, com ilustrações suas. O que te atraiu nesse projeto?
[O poeta e político francês nascido em Martinica, no Caribe] Aimé Césaire (1913-2008) é um importante intelectual negro. Sua obra é uma crítica contundente sobre o racismo e o colonialismo europeu em meados do século 20. Realizar as ilustrações desse texto foi poder dialogar com uma obra crucial.

 

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