Novembro está sendo um mês especialmente ruim para quem tem planos de viajar para o exterior e, portanto, precisará trocar reais por moedas estrangeiras nas próximas semanas.

Na última segunda-feira (18), o dólar comercial encerrou o dia na maior cotação nominal da sua história, a R$ 4,20 — com a ressalva de que o dólar turismo, aquele que a gente compra nas casas de câmbio, é mais caro ainda.

A sequência de altas (a moeda americana chegou a ficar abaixo de R$ 4 no começo do mês) acende um alerta natural em quem tem planos de turismo no exterior: afinal, o dólar vai subir ainda mais e é melhor comprar agora para se precaver ou vai baixar e o momento é de aguardar para tirar proveito disso?

Analistas consultados pelo 6 Minutos apostam que a tendência é que o patamar atual não se sustente por muito tempo, apesar da ressalva padrão sobre os rumos incertos da guerra comercial entre China e Estados Unidos, a principal razão para a alta. Nesse cenário, esperar mais um pouco pode ser uma boa dica, apesar de ser importante não nutrir falsas expectativas: a moeda americana não deve ficar muito mais barata do que está agora.

Por que o dólar subiu tanto? Para Adauto Lima, economista-chefe da Western Asset, e para Victor Beyruti, analista da Guide Investimentos, a desvalorização do real tem relação direta com três fatores, que criam um cenário de aversão ao risco por parte de investidores e prejudicam as moedas de países emergentes.

  1. A guerra comercial: A perspectiva de um primeiro acordo entre China e Estados Unidos ainda em 2019 perdeu força, com declarações dúbias de integrantes de ambos os governos. Esse é o principal fator, agravado pelos que seguem.
  2. O leilão da cessão onerosa: A expectativa de que grandes empresas estrangeiras participariam ativamente do leilão de áreas do pré-sal não se confirmou, frustrando a expectativa da entrada de dólares.
  3. A América do Sul: O continente vive um momento de instabilidade política, em especial com as manifestações no Chile e os protestos que levaram à queda do presidente da Bolívia, Evo Morales.

E agora? Os fatores acima seguirão presentes e toda atenção é pouca quando o assunto são as disputas entre os governos de Donald Trump e Xi Jinping. No entanto a percepção é que a depreciação do real é excessiva e a moeda brasileira deve passar por um ciclo de ajuste nas próximas semanas.

A Guide trabalha com a estimativa de que a cotação do dólar comercial oscile na faixa entre R$ 4,05 e R$ 4,20 no primeiro semestre de 2020. No cenário mais pessimista, com imposição de tarifas extras entre os dois países e mais conflito, acredita-se que essa cotação pode chegar até, no máximo, a faixa de R$ 4,30.

Para Victor Beyruti, apesar da perspectiva de baixa da cotação no médio prazo, a boa dica é fracionar a compra ao longo dos próximos meses até a data de viagem para diluir o risco. “Eu sempre digo para quem vai viajar ir comprando aos poucos, porque aí não fica tão arriscado”, argumenta.

Adauto Lima, da Western, ressalva que, na ponta do lápis, a oscilação final não será grande. Isso significa que, no seu entendimento, não faz tanto sentido contar com mudanças na taxa de câmbio. “A viagem é um custo já contratado, a pessoa já vai viajar. A cotação teria um peso maior para grandes valores.” Lima prevê que o dólar deve começar a se retrair, caso o cenário não mude, em cerca de um mês.

Vale lembrar que a situação deve ser parecida para outra moeda muito procurada por brasileiros, o euro. A expectativa é que a cotação da moeda europeia em relação ao dólar, hoje na casa de US$ 1,11, deve se manter. O fator de risco no caso do Velho Continente segue sendo o Brexit, o processo de saída do Reino Unido da União Europeia, que deve ter um desfecho até janeiro de 2020. Uma saída abrupta, sem um acordo de transição, pode ampliar o sentimento de aversão ao risco por parte de investidores estrangeiros.

Cenário doméstico deve ajudar. Para os analistas, a situação interna do Brasil deve ajudar. O economista-chefe da Western Asset explica que uma eventual estagnação da agenda econômica após a reforma da Previdência já é algo esperado e que não deve provocar grandes desconfianças por parte dos investidores.

O que ainda pesa, para ambos os analistas, é o desafio de separar a situação brasileira das demais na América Latina. “Dizemos que o Brasil é diferente e que a reforma passou, mas depois o presidente da República sai do seu partido (o PSL). Nós acreditamos que isso não afeta as reformas, mas é difícil dar essa garantia”, diz Beyruti.

O analista da Guide explica que um dos fatores que provocam instabilidade, na visão dos investidores, é a polarização política, seara na qual o Brasil está em situação delicada. O temor pode se agravar com a libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fortalece o pólo contrário ao presidente Jair Bolsonaro.

A avaliação é que, apesar de a reforma da Previdência melhorar o cenário das finanças públicas no longo prazo, falta uma solução para o déficit fiscal no curto prazo. Existem propostas que poderiam melhorar a situação e, portanto, dar um fôlego extra ao real: os analistas citam projetos que criam mecanismos de controle dos gastos públicos em situações de crise, como a PEC Emergencial, proposta pelo ministro Paulo Guedes.

Quer receber nossos boletins e notícias pelo Whatsapp? É só clicar no link abaixo com o seu celular e você já estará no nosso grupo.