Vale a pena ver A Vida Invisível? Sim. A história das irmãs Gusmão, baseada no romance A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, roteirizada por Murilo Hauser e dirigida por Karim Aïnouz, é uma trama que pode ser resumida por uma frase de Guida: “Descobri que família não é só sangue, família é amor”.

O que faz o filme ser imperdível? O melhor de A Vida Invisível é retratar como os costumes e a moralidade na sociedade brasileira dos anos 1950 podem ser forças que corroem famílias em nome de salvá-las. Esse é o mal que acomete a família Gusmão, de pai e mãe portugueses com suas duas jovens filhas nascidas no Brasil. O afastamento de Guida de sua família de sangue e a mentira que transforma essa fuga em um exílio fazem com que tanto ela quanto sua irmã Eurídice tenham vidas marcadas em partes iguais pela ausência que machuca e a esperança no reencontro que busca ser concreta. Na passagem das décadas, o laço cortado nunca deixa essa família ser completa novamente, mas também não a interrompe. Talvez essa seja a maior surpresa: invisível que seja, a vida continua a acontecer.

Os desempenhos de Carol Duarte como Eurídice e de Julia Stockler como Guida são a espinha dorsal do filme, mas há muito mais substância para preenchê-lo como grande filme que é: a fotografia de Hélène Louvart, que mostra um Rio tropical mais em verde e azul do que o costumeiro amarelo solar; a direção cadenciada de Aïnouz, que não teme o ritmo mais lento e contemplativo, que combina com a passagem dos meses que viram anos que se tornam décadas; e a Filó de Bárbara Santos, uma força da natureza que atravessa a trajetória de Guida para tirar muito da invisibilidade de sua vida.

Você pode me contar um pouco mais sobre a história? A Vida Invisível trata de mostrar como Guida e Eurídice Gusmão se unem para encontrar lampejos de vitalidade em uma vida regrada e uniformizada conduzida por um patriarca quase anedótico –o português António que faz pães, sempre com a presença de Ana, a mulher e mãe silenciada–, mas capaz de violência autoritária real. Para fugir da vida invisível, as irmãs buscam válvulas de escape além dos longos passeios pelas florestas e praias do Rio: Guida, na paixão por um marinheiro grego; Eurídice, no piano.

As escolhas feitas em busca da visibilidade serão drásticas no caso de Guida e frustrantes para Eurídice. Tomadas desde o início do filme, as decisões terão peso definitivo no afastamento e apagamento de Guida para a família Gusmão e farão de Eurídice uma alma aprisionada por um eterno “e se?” em relação ao seu talento como pianista.

É justamente essa possibilidade de ter no piano um caminho para sair da invisibilidade que é capturada por António para separar Guida dos Gusmão. E o meio de fazer isso é uma mentira: sobre Eurídice e sobre o futuro da família que sobrou. Pode-se dizer que o patriarca cumpre sua missão: seu plano deixa Eurídice invisível ao se tornar apenas uma boa mãe de família para seu marido Antenor (vivido por Gregório Duvivier) e Guida ainda mais invisível, obrigada a construir uma nova e precária rede de proteção.

Há uma maneira de imaginar a vida como a arte do encontro que acontece e nunca mais se repete. Como se duas linhas que se encontraram em um determinado momento e passam a correr em paralelo são fadadas a se cruzar novamente – e disso não há nenhuma certeza. A vida não dá garantias e vivê-la em busca desse encontro que pode nunca acontecer é um caminho como tantos outros. E Eurídice e Guida são símbolos desse caminho.

O que não funciona? Por mais que seja emocionante e permita um desfecho com alguma beleza para a história das irmãs, a aparição de uma Eurídice já na velhice (interpretada por Fernanda Montenegro com a maestria habitual) parece deslocada na cadência mais demorada que permeia o filme. A transição de anos para décadas acontece com um encaixe com mais rebarbas do que os outros saltos temporais do filme.

Uma curiosidade: Apesar de ter a estreia comercial apenas neste mês de novembro, A Vida Invisível construiu uma carreira de sucesso no circuito de festivais: ganhou a mostra Um Certo Olhar em Cannes, recebeu o prêmio Espiga de Prata, o segundo mais importante da Semana Internacional de Cinema (Seminci), realizado na cidade de Valladolid, na Espanha, e suas sessões na recém-encerrada Mostra Internacional de São Paulo foram das mais disputadas nesta edição. Além, claro, de ter sido escolhido como a produção brasileira que irá disputar uma das indicações para o Oscar de Melhor Filme Internacional.

Quando? A Vida Invisível estreia nesta quinta-feira (21) em circuito comercial. Confira a programação em sua cidade.

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