Vale a pena ver O Irlandês, que estreia nesta quarta (27)? Vale muito. O novo filme de Martin Scorsese, uma superprodução de quase US$ 160 milhões que foi bancada integralmente pela Netflix, tem lugar entre os melhores trabalhos do diretor americano e deve ser um dos favoritos para o Oscar de 2020.

O que faz o filme ser imperdível? A maestria do diretor para contar a história de Frank Sheeran (papel de Robert De Niro), um veterano da 2ª Guerra Mundial que passa a dirigir caminhões na Filadélfia ao retornar do combate em solo europeu, em três camadas temporais, que se entrelaçam.

A primeira, que se conta em décadas, é o do dia-a-dia de Sheeran, a formação de sua família, as decisões que o levam a servir tanto à máfia italiana quanto a Jimmy Hoffa (interpretado por Al Pacino), o maior sindicalista da história dos EUA. A segunda dá conta dos dias que preenchem uma viagem de carro, que ele faz entre a Filadélfia e Ohio com Russell Bufalino (Joe Pesci), seu padrinho na máfia, e suas respectivas esposas, para resolver um conflito entre os mafiosos e Hoffa. O terceiro tempo são os anos que um Frank idoso passa em uma casa de repouso, longe da família que lhe resta e que contempla a ausência pela morte de todas as figuras de afeto e referência que teve na vida.

A dificuldade de construir uma narrativa que dê conta dos três tempos da história está na realidade da vida de Sheeran, que é turbulenta, entrecortada e violenta. Há inúmeros solavancos na trajetória d’O Irlandês que dá nome ao filme: existe o esforço para ser um pai de família e marido nos moldes da sociedade americana do pós-guerra, que entra em conflito com a lealdade que deve ao homem e à organização que tiraram ele da pobreza assim como o alinhamento ao líder sindical a quem protege pessoalmente. Nenhuma dessas partes da vida de Frank dialoga com as outras de maneira complementar ou harmoniosa. E é o “pintor de casas” da máfia italiana e faz-tudo de um dos homens mais importantes na história da política dos EUA no século XX que será tragado por essas circunstâncias e acabará seus dias no isolamento, exilado de sua própria família.

Você pode me contar um pouco mais sobre a história? A trama dirigida por Scorsese, baseada no livro lançado por Charles Brandt em 2005, tem um quê de Forrest Gump da máfia italiana. Sheeran é um veterano de guerra que volta aos EUA e consegue um emprego firme, mas que paga pouco, como motorista de caminhão sindicalizado na Filadélfia. Sua propensão a apelar para pequenos golpes de roubo de carga para complementar a renda familiar acaba atraindo a atenção de associados de um chefe local da máfia. Bufalino acaba por recrutá-lo para as fileiras do crime sem nunca deixar de mantê-lo na sessão local do sindicato dos transportadores de carga, que é comandado nacionalmente por Jimmy Hoffa, a mais poderosa reunião de trabalhadores da história dos EUA, com mais de um milhão de integrantes.

O toque de Forrest Gump vem do envolvimento, direto ou indireto, de Sheeran com eventos muito importantes na história dos Estados Unidos no período que começa no pós-2ª Guerra até sua morte, no início dos anos 2000. A eleição de John F. Kennedy, a tentativa fracassada de um golpe contra o regime castrista em Cuba que partiu de cubanos-americanos conhecida como invasão da Baía dos Porcos, a morte do mesmo John Kennedy em Dallas, o assassinato do irmão de JFK, Bob Kennedy, quando esse era candidato à presidência dos EUA e até mesmo o desaparecimento do próprio Hoffa. Além, claro, dos serviços de menor perfil como soldado da máfia e aquela que é sua missão mais longa e pessoal: ser o faz-tudo e guarda-costas de Hoffa.

Apesar de se considerar um homem de família, como pai e provedor, a relação de Frank com o submundo não passa despercebida por sua esposa e suas três filhas. Em especial a caçula, interpretada na fase adulta por uma ótima Anna Paquin, que é uma força de oposição silenciosa, mas muito presente, à relação do pai com o crime organizado. Essa oposição acaba sendo o início de um afastamento que se tornará completo nos últimos anos de Sheeran, que terá em um padre católico –instituição muito próxima dos irlandeses-americanos–, alguém disposto a ouvir as razões que levaram esse homem a “pintar tantas casas”.

O que não funciona? Para muitos, a duração do filme, de três horas e meia, é um empecilho. A geração Netflix –que como financiadora e produtora da obra deu carta branca financeira e artística a Scorsese, que não conseguiu emplacar seu caro e longo projeto com os estúdios de cinema tradicionais– está acostumada a consumir conteúdo em períodos mais curtos, como os episódios de 30 a 45 minutos das séries que fazem sucesso na plataforma de streaming. Encarar uma obra mais densa e complexa e com tamanha duração é um desafio comparável às maratonas que muitos espectadores fazem de seus seriados preferidos, mas parece que muitos não enxergam dessa maneira.

Em relação ao enredo, há uma certa sensação de que a introdução de Hoffa à narrativa é feita de maneira um pouco atabalhoada. A rapidez com que o sindicalista aparece e torna-se um protagonista da história causa estranheza. Mas a importância dele na história de Frank logo se torna parte intrínseca da trama.

Uma curiosidade: Scorsese, que recentemente se viu envolvido em uma polêmica por afirmar que os filmes do Universo Cinematográfico Marvel “não são cinema”, recorreu a uma tecnologia desenvolvida nos filmes da gigante mundial do entretenimento baseado em histórias em quadrinho. A ferramenta que possibilita o rejuvenescimento facial dos personagens, fundamental para dar verossimilhança a uma trama que funciona em três momentos cronológicos diversos e distantes como O Irlandês, é resultado do investimento de empresas que trabalharam em obras da Marvel. Fica a provocação: será que isso coloca o longa de Scorsese na categoria de “obra não-cinematográfica”?

Quando? O Irlandês estreia nesta quarta-feira (27) no catálogo da Netflix. A assinatura mensal da plataforma de streaming custa a partir de R$ 21 por mês.

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