O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tem aproveitado discursos e entrevistas na largada de 2020 para apresentar suas prioridades em seu segundo ano no cargo. Entre os temas citados, um chama atenção em particular por causa do seu potencial de efeitos para os brasileiros: a adoção de novas medidas que fortaleçam a concorrência no setor bancário e a diversificação dos serviços oferecidos pelas instituições.

“Muitas coisas que estamos fazendo é para igualar as redes digitais com as redes físicas. Estamos atuando em áreas em que existem entraves que fazem com que a plataforma digital não consiga competir”, disse Campos Neto em evento recente sobre a chamada Agenda BC#. Conforme o 6 Minutos noticiou nesta semana, um dos “entraves” sobre os quais o BC se debruça é o impedimento para o pagamento de contas como as de água, luz e telefone em bancos digitais.

Diretoria do Banco Central quer reduzir “entraves” para a concorrência no setor bancário Crédito: Andre Coelho/Bloomberg

Os recados do presidente do Banco Central estão sendo acompanhados atentamente no mercado financeiro, segundo especialistas que acompanham o setor. Um dos reflexos mais visíveis das declarações de Campos Neto é a queda acentuada das ações dos grandes bancos na bolsa de valores.

Entre 30 de dezembro (último pregão de 2019) e 16 de janeiro, as principais instituições viram suas ações recuar. A menor queda foi de 4,23%, caso do Bradesco (BBDC4), e a maior, de 6,46%, do Itaú Unibanco (ITUB4). O setor bancário tem um peso de cerca de 20% na carteira do Ibovespa, índice de referência da bolsa.

O desempenho negativo para os bancões ajuda a explicar a alta de apenas 0,91% do índice neste ano, que contrasta com a valorização superior a 7% em dezembro. Na contramão, o Banco Inter, banco digital que está listado na bolsa mas não integra a carteira do Ibovespa e que se beneficia das medidas do BC, subiu 22,13% no mesmo período.

Novo patamar de concorrência. Para Glauco Legat, analista-chefe da corretora Necton, os “bancões” ganharam um nível de concorrência bem mais elevado nos últimos. “Muita gente já possui conta em banco digital. Não são todos que usam essas contas, mas não tem como negar que essas novas instituições financeiras vêm colocando uma pressão grande no mercado”, afirma.  

O analista de risco Luís Santacreu, da Austin Rating, diz que a precificação reflete uma projeção mais pessimista no longo prazo, mas que os próximos passos das ações serão influenciados pela forma como os “bancões” reagirão aos concorrentes.

“A entrada de novos participantes no mercado e de novas tecnologias estão mudando a forma como os brasileiros enxergam os bancos, que sempre foi muito calcada na figura da agência física. Com as tendências do setor e o Banco Central estimulando a concorrência, os analistas agora vão olhar um a um para entender as iniciativas que estão adotando para reagir”, argumenta Santacreu, que é especializado no setor bancário.

Cenário em movimento. O analista-chefe da Necton ressalta que esse cenário, entretanto, não é estático. “Se nós notamos esse cenário de maior concorrência, os bancos devem estar de cabelo em pé, na tentativa de mudar ou retardar ao máximo esse processo”, afirma. 

Como exemplo, ele cita o Bradesco, que criou o Next, seu próprio banco digital. “Nada impede que os grandes bancos comprem os digitais ou mesmo passem a ter fintechs prestando serviços a eles em diferentes segmentos, como forma de cortar custos”, afirma Legat.

Santacreu corrobora essa posição, ressaltando que as grandes instituições possuem recursos e capital humano disponíveis para fazer frente a esse processo de competição. Segundo o analista da Austin Rating, no entanto, o desafio é avançar com “um pé em cada canoa”, uma vez que os grandes bancos precisam crescer nas plataformas digitais enquanto mantêm o caro funcionamento de muitas agências físicas no país.

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