No mês passado, em meio à pandemia, o Brasil atingiu uma marca que reflete o tamanho da crise econômica que se arrasta no país há anos e que se intensificou por causa do coronavírus: o número de MEIs (microempreendedores individuais) ultrapassou a marca de 10 milhões, o equivalente a quase 5% da população brasileira.

Apesar de a quarentena ter reduzido o forte ritmo de criação de microempresas, um movimento que vem desde 2018 por causa da demora na reação da economia, em abril foram formalizados 5 mil pequenos negócios por dia, em média –em janeiro, esse número era ainda maior, de 8 mil.

Esse compasso menor mas ainda intenso de legalização de pequenas firmas é consequência de dois aspectos opostos: por um lado, o isolamento social brecou os sonhos de muitas microempresas; do outro, a perda de renda ou de emprego tornou o ato de abrir um negócio questão de sobrevivência.

“Antes da pandemia, havia gente que empreendia por necessidade e um percentual que fazia isso para realizar um sonho. Hoje aumentou muito o número daqueles que viram MEI por necessidade”, afirma Bruno Dilda, diretor de negócios da plataforma Azulis, que presta consultoria a microempresas.

A figura jurídica do microempreendedor foi criada em 2008 para promover a formalização com uma carga tributária menor, dando a profissionais autônomos e microempresários a opção de tornarem seus empreendimentos legais.

Ao se tornar uma microempresa, o negócio que tem um faturamento máximo de R$ 81 mil por ano (ou R$ 6.750 por mês) pode ter um CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas), se enquadrando no Simples e pagando todos os impostos de uma vez só (o valor depende do ramo de atividade, mas a média é de R$ 50 por mês).

Desemprego persistente

O crescimento dos microempreendedores é reflexo da dificuldade da economia brasileira em reagir nos últimos anos, o que levou a muita gente ficar sem emprego por muito tempo. A crise do coronavírus complicou ainda mais esse cenário.

“Apesar de o ritmo de criação de MEIs ter se reduzido, as buscas por conteúdo sobre microempresas deu um salto no mês passado”, afirma Dilda. “Faz total sentido quando pensamos que são pessoas que perderam seus empregos e estão buscando outras formas de fazer renda”.

De acordo com ele, depois da pandemia a maior parte de microempresas criadas tem relação com os ramos de alimentação por delivery, serviços de entrega e atividades diretamente ligadas ao coronavírus, como confecção de máscaras de proteção. “Por outro lado, há um movimento de queda em setores como educação, viagens e serviços administrativos”.

Digitalização à jato

O grande desafio das microempresas no momento, segundo Dilda, é acelerar o processo de digitalização, com a oferta de serviços através de redes sociais e lojas virtuais.

“Estamos com uma iniciativa que se chama ´Salve os Pequenos´, que é um site que permite o cadastramento para que pequenos negócios façam entregas dos seus produtos. E notamos que ainda havia muitas empresas que não trabalhavam no digital, como mercadinhos e hortifrútis”, afirma ele.

Além da formalização em si, as vantagens de se tornar MEI são contribuir para a previdência e ter direito a benefícios como auxílio-doença, aposentadoria por invalidez e licença-maternidade, além do principal deles: conseguir crédito como pessoa jurídica, com taxas menores.

Esse processo, entretanto, está cada vez mais complicado no cenário atual, já que os microempreendedores muitas vezes estão sem garantias para apresentar em troca de financiamentos.

“Estamos vendo um forte aumento da procura por crédito, mas não no número de empréstimos realizados, muito pelo contrário”, diz Dilda. “Uma garantia comum era a venda de maquininhas de cartão, mas a crise vem atrapalhando tudo”.

 

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