Os dados mais recentes divulgados pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) mostram que a confiança do empresário industrial está no maior nível desde 2010. Se olharmos para a fotografia daquele ano e para a de 2020, a diferença fundamental é que em 2010 o PIB cresceu nada menos que 7,5%. O avanço esperado para a economia neste ano é bem mais modesto, de no máximo 2,5%.

O que explica, então, esse otimismo dos empresários? Para Marcelo Azevedo, economista da CNI, esse aumento de confiança da indústria vem acontecendo desde o início de 2019. “Houve uma percepção de melhora na economia como um todo – a inflação e os juros caíram, e o consumo interno voltou a dar bons sinais. O próprio empresário industrial viu seu número de pedidos aumentar, e o faturamento crescer”, explica.

A questão é que os dados do IBGE sobre a produção industrial não estão acompanhando essa alta no otimismo. Os últimos resultados da Pesquisa Industrial Mensal mostram que entre janeiro e novembro o setor encolheu 1,1%. Observados os dados mensais, o gráfico de desempenho da indústria faz a mesma trajetória de uma montanha russa — variando meses positivos e negativos.

Isso não contradiz esse sentimento de melhora? Em partes, sim. Azevedo, da CNI, diz que a série do IBGE não está refletindo corretamente o desempenho do setor. “Os dados mensais mostraram um mês de outubro excelente e um mês de novembro muito ruim. Nós acreditamos que não aconteceu nem uma coisa nem outra: nem outubro foi tão bom, nem novembro foi trágico”, afirma o economista.

Ele admite que, embora alguns setores da indústria comecem a perceber uma melhora na produção e faturamento, não houve ainda um avanço significativo do emprego. Prova disso são os números do Caged: a indústria da transformação foi responsável pela criação de pouco mais de 18 mil vagas em 2019.

Ainda que o número seja positivo, e que represente um avanço em relação aos resultados de 2018, ele é pouco contribuitivo — em 2018, foram geradas 644 mil vagas formais, a maior parte no comércio e nos serviços . E o problema disso é que os empregos formais no setor industrial são os de maior qualidade, que pagam salários mais altos.

“A utilização da capacidade instalada cresceu, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. O que estamos vendo é que os empresários estão ligando máquinas que antes estavam paradas, mas ainda não estão fazendo investimentos para comprar máquinas novas. Só quando isso acontecer o emprego melhorará”, afirma Marcelo Azevedo, da CNI.

E quando a geração de vagas na indústria deve engrenar? O uso da capacidade instalada está em 78%, o maior desde agosto de 2018. Esse dado é importante porque ele dá um termômetro para os investimentos na indústria. Em outras palavras: se o uso da capacidade instalada estiver baixo (o que significa que há mais máquinas paradas), o empresário industrial não fará investimentos tão cedo.

Segundo a CNI, 8 em cada 10 grandes indústrias devem fazer novos investimentos em 2020 — é a maior expectativa desde 2014, antes da crise. A mesma pesquisa da CNI mostra que, em geral, parte dessa expectativa é frustrada — ou seja, nem todo mundo que quer investir acaba conseguindo ampliar os negócios.

“Mas a expectativa de aumento da demanda interna, especialmente nos bens de consumo (carros, eletrodomésticos e eletrônicos), deve fazer com que a produção cresça, e os investimentos se concretizem ainda em 2020”, observa Azevedo, da CNI. Essa recuperação, no entanto, será em marcha lenta.

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