Depois de cinco anos de crise, a construção civil vê dias mais positivos em seu horizonte. A queda nos juros dos financiamentos imobiliários e a retomada, ainda que lenta, do emprego estão levando mais famílias a comprar um imóvel. Esse ciclo se traduz no aumento no número de lançamentos de empreendimentos, de venda de novas unidades e da redução no número de imóveis em estoque (que estão prontos, mas não foram vendidos).

Quais são os números? Segundo a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), os lançamentos cresceram 4,1% no terceiro trimestre. O avanço nos últimos 12 meses chega a quase 24%.

As vendas subiram 15,4% no ano, mas tiveram uma queda de 4,9% no terceiro trimestre em relação aos três meses anteriores. “Foi reflexo da paralisação das verbas do governo para o programa habitacional Minha Casa Minha Vida“, explica Luiz França, presidente da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias).

De acordo com dados da Abrainc e da Fipe, se desconsiderados os empreendimentos do Minha Casa Minha Vida, as vendas de imóveis subiram 2,6% no acumulado do ano. Hoje, a oferta de imóveis do programa para famílias de classes média e baixa já representa mais da metade do total de unidades vendidas no Brasil.

Por que está melhorando? O fator principal é a queda na taxa de juros. A Selic, como é chamada a taxa que referencia o crédito no Brasil, caiu de 8,25%, em outubro de 2017, para 5% agora. A expectativa é que até o final de 2019 esse juro básico recue ainda mais, para 4,5%.

“Realizamos um levantamento que mostra que a queda da taxa Selic para 5% deve dar acesso a crédito imobiliário a 2,8 milhões de famílias. Junto com a expectativa da diminuição dos juros futuros, tudo isso vem funcionando como um grande impulsionador ao crescimento”, diz França, da Abrainc.

Como a Selic referencia o custo do crédito para a compra de imóveis, o efeito é de queda na taxa para os consumidores. Afirma França: “A taxa do financiamento imobiliário está no menor nível histórico — na Caixa já chegou a 6,75% ao ano. Já é percebido um aumento de 20% na oferta de crédito imobiliário”.

Isso já foi suficiente para recuperar as perdas da construção? Ainda não. Ieda Vasconcelos, economista da CBIC, lembra que o setor da construção civil encolheu 27% entre 2014 e 2019. Ela chamou de “primeiro passo” a melhora ao longo de 2019. “O setor começa a respirar mais aliviado, mas estamos muito longe de recuperar tudo que foi perdido”, afirma a economista.

Ainda que a expectativa seja a de que o consumo seja o grande motor do crescimento do PIB no terceiro trimestre, a construção civil deve dar um empurrão na atividade econômica. “Só o setor da construção representa 5% do PIB, mas, se contarmos toda a cadeia produtiva, esse número vai para quase 10%. Qualquer crescimento no setor impulsiona também o comércio, os serviços e a economia como um todo”, explica Ieda, da CBIC.

No acumulado de 2019, mais de 120 mil vagas com carteira assinada foram criadas para atividades da construção civil. O número de pessoas trabalhando no setor cresceu 6% desde o começo do ano.

O que deve acontecer com a construção daqui para a frente? A alta nos lançamentos e nos números de vendas deve ser multiplicada com a queda na taxa de juros e, principalmente, com as expectativas de melhora no mercado de trabalho no ano que vem. “A queda no desemprego prevista para 2020 seria o grande gatilho para o ciclo de crescimento se consolidar”, prevê França, da Abrainc.

O risco é que o aumento na demanda acabe puxando os preços para cima. Segundo dados do Secovi-SP (Sindicato da Habitação de São Paulo), o preço médio dos imóveis novos no estado já subiu quase 9% no último ano. O valor dos imóveis usados também avançou, mas em menor proporção: 2%.

“Estamos com um estoque muito baixo. O número de imóveis parados está no menor patamar da série histórica”, conta Ieda, economista da CBIC. O estoque caiu de 176 mil imóveis em janeiro de 2016 para 124 mil em setembro de 2019. “Isso abre uma janela de oportunidade para o setor, que possibilita novos lançamentos. Mas o preço para o consumidor será definido pela lei da oferta e da procura”, define Ieda.

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