Criar alguma estabilidade para o gasto público foi o argumento comum que serviu tanto para aprovar a reforma da Previdência em 2019 quanto a PEC do Teto dos Gastos em 2016. Essas duas medidas serviriam, entre outros objetivos, para conter a trajetória de alta da relação entre dívida pública e PIB (Produto Interno Bruto), o que daria mais saúde aos cofres públicos e atrairia o investidor estrangeiro. No entanto, com as duas medidas em vigor simultaneamente desde outubro do ano passado, o dinheiro do exterior não veio na intensidade que muitos previam. No mercado de ações e renda fixa, pelo contrário, há mais saídas do que entradas. Os motivos da fuga? Crescimento fraco, baixa atratividade dos investimentos e câmbio volátil.

Em números:

  • O investimento direto em empresas, indústrias, agropecuária e concessões cresceu 0,51% entre dezembro de 2018 e 2019, para US$ 78,5 bilhões;
  • No mesmo período, as aplicações nos títulos do Tesouro subiram apenas 0,10%, de acordo com dados do Banco Central;
  • Segundo a B3, os investidores têm tirado mais do que aplicado em ações brasileiras;
  • Em 2018, após PEC do Teto e Reforma Trabalhista, o balanço na B3 foi negativo em R$ 5,69 bilhões;
  • Em 2019, ano da reforma da previdência, o saldo ficou no vermelho: R$ 4,69 bilhões;
Investimento estrangeiro -Brasil - 6 Minutos

Investidor estrangeiro está cauteloso com aportes no Brasil
Crédito: Shutterstock

Os números mostram que o investidor estrangeiro não está exatamente ausente, mas a presença é menor do que no passado, quando as reformas não estavam aprovadas. “Esperávamos uma queda ainda maior no investimento direto e na Bolsa”, diz Luiz Afonso Lima, economista da Sobeet (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica). 

O que esse investidor estrangeiro faz aqui?

  • Investimento direto: compra empresas, expande instalações ou abre novos negócios nos setores de serviços, indústrias e agropecuária. Também participa das concessões de rodovias, portos e campos de petróleo, por exemplo;
  • Compra títulos do Tesouro Nacional;
  • Compra ações de empresas negociadas na Bolsa de Valores.

Investimento estrangeiro também influencia no preço do dólar. Para investir no Brasil, é preciso comprar reais. O investidor entrega dólares para comprar a moeda brasileira, o que aumenta a quantidade de dólares em circulação. Isso valoriza o real frente à moeda norte-americana, que fica mais barata.

Por que o estrangeiro não veio? Objetivamente, porque ele não está vendo o país crescer. A motivação é a mesma para os que decidiram sair. “Investidores internacionais estão atentos para ver como as companhias reagem às reformas e como o maior acesso a crédito vai endereçar a nova fase da economia”, diz Ed Kuczma, analista de renda variável na América Latina. Ele responde pela BlackRock, maior gestora do mundo.

“A reforma da Previdência foi fundamental, mas outras mudanças e mais governança são necessárias para avançar no ajuste fiscal. A chave do crescimento está no setor privado, e cabe aos legisladores prover condições para que isso aconteça”, continua Kuczma.

Apesar de importantes, a reforma previdenciária e os ajustes fiscais são fatores de redução da demanda no curto prazo porque tiram dinheiro público que poderia ser destinado ao consumo. E o setor privado segue desconfiante. O cenário afasta ainda mais o estrangeiro, prevê Lima, da Sobeet. Ou seja, vai piorar antes de melhorar. “O investidor vai esperar um pouco até que o efeito positivo aconteça no longo prazo, daqui a uns cinco, seis anos”. Do investimento que tem sido feito, a maior parte é em negócios já existentes, e não em novos projetos.

A influência do cenário externo: A atratividade da economia dos Estados Unidos complica a situação por aqui. Desde que assumiu a presidência, em 2017, Donald Trump reduziu de 34% para 21% o Imposto de Renda das companhias instaladas no país e, em paralelo, aumentou a tributação sobre companhias com filiais fora dos EUA. Na prática, isso desestimulou o investimento no exterior de companhias americanas. O detalhe, lembra Lima, é que a maior parte dos investidores estrangeiros interessados no Brasil vem justamente dos EUA.

Apesar da perspectiva de crescimento das economias emergentes, os protestos no Chile e a situação fiscal na Argentina afastam investidores. O cenário global já é de aversão ao risco, e grandes aportes no Brasil, desaquecido e com nota de crédito baixa, não trazem retorno. Muito menos segurança. “É muito ruim que tenhamos vizinhos na América Latina que não estão indo bem. Isso gera um mau humor com a região como um todo”, diz Fernando Gonçalves, superintendente de pesquisa econômica do Itaú BBA.

Gonçalves também acredita que que a perda do grau de investimento (que funciona como uma espécie de selo atribuído a países seguros para aplicações) não ajuda o Brasil. “Para recuperarmos a nota de crédito, será necessário ter uma porção de avanços, que não só a reforma da Previdência. As agências de risco não tomam essa decisão com base em um único fator”.

Juro baixo também diminui atratividade dos títulos brasileiros. Além disso, os juros básicos do Brasil estão no menor nível da história, o que reduz a atratividade do investimento na renda fixa, notadamente em títulos públicos. A Selic, a taxa básica de juros, caiu de 14,25% em 2016 para 4,25% atualmente.

“Nossos juros eram muito mais altos que os de outros países, então deixamos de ter essa fonte de atratividade. Esperava-se que os estrangeiros migrassem para investimentos relacionados ao crescimento da atividade econômica, mas esse crescimento ainda não aconteceu”, diz Gonçalves, do Itaú BBA.

Ele acrescenta que outro obstáculo para a entrada do investidor estrangeiro é o câmbio. A volatilidade da cotação do dólar torna o momento de entrada incerto. Com essa trajetória ascendente da moeda americana, o investidor estrangeiro espera para ver se o real se desvalorizará ainda mais, o que posterga essa janela de retorno das aplicações estrangeiras.

Para Kuczma, da BlackRock, “a tendência é o investimento em economias com potencial de crescimento. O Brasil, com sua agenda de reformas pró-mercado e negócios, inflação controlada e juros baixos para fomentar o crédito, se encaixa nessa categoria. Mas se as reformas não andarem e a economia não crescer, haverá frustrações”. O investidor decidiu esperar.

Então o investidor está mesmo distante? De forma geral sim, mas há um olhar atento e ações assertivas para setores específicos como o imobiliário, consumo, acesso a crédito e e-commerce. O risco Brasil ainda é alto, mas alguns setores se salvam.

“Setores mais dependentes do custo do crédito podem ter uma performance melhor. Já os que dependem da renda não se beneficiam tanto, pois o desemprego ainda é elevado”, afirma Gonçalves, do Itaú BBA. Ele diz que, enquanto o investidor estrangeiro está mais cético, o mercado doméstico está confiante na aprovação de novas reformas, como a administrativa, a tributária, a PEC emergencial dos gastos e a desoneração do orçamento.

Confiando em que todas essas agendas serão encampadas pelo governo daqui para frente, o investidor local já vislumbra um crescimento maior lá na frente. É a visão do oásis para quem está no deserto.

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