O presidente Jair Bolsonaro utilizou a rede nacional de rádio e televisão nesta sexta-feira (23) para apresentar a sua posição sobre a crise de desmatamento e incêndios florestais na Amazônia. Em um breve discurso, Bolsonaro relativizou as queimadas, deu indiretas a governos europeus que o criticam e argumentou contra sanções comerciais ao Brasil.

Bolsonaro falou por quatro minutos. O discurso, na íntegra, está no vídeo abaixo. Se preferir, nós resumimos e explicamos tudo o que ele disse na sequência.

O que Bolsonaro disse por tópicos:

  • Incêndios: O presidente relativizou a responsabilidade humana como causa dos incêndios florestais, que segundo ele cresceram por estarmos em um ano “mais quente e seco”. Bolsonaro também argumentou que os números estão “na média dos últimos 15 anos”. Segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), os alertas de queimadas aumentaram 83% no Brasil entre janeiro e agosto deste ano, em comparação com o mesmo período de 2018.
  • Reação do governo: Ressaltou a sua decisão de assinar um decreto permitindo que as Forças Armadas atuem nos estados da Amazônia Legal para o combate aos incêndios e delitos ambientais. O documento inicialmente abrange o estado de Roraima e determina que os demais solicitem a inclusão, se quiserem.
  • Política ambiental: O presidente justificou a política de seu governo, que tende a flexibilizar e liberar atividades econômicas na Amazônia, dizendo que há a necessidade de ampliar as fontes de recurso das populações que vivem na região. “É preciso dar oportunidade para que se desenvolvam”, disse.
  • Europa: O discurso foi repleto de indiretas aos países europeus que criticaram a sua atuação nos últimos dias. Sem citar nominalmente ninguém, falou em informações falsas “pelo mundo” (o presidente francês Emmanuel Macron compartilhou uma imagem antiga ao falar do assunto), disse que países desenvolvidos não estão cumprindo suas metas no Acordo de Paris e que a legislação ambiental brasileira é “exemplo para o mundo”.
  • Sanções comerciais: Esse é o ponto que pega o Brasil pelo bolso. “Incêndios florestais existem em todo mundo e isso não pode servir de pretexto para possíveis sanções internacionais”, afirmou o presidente. O agronegócio brasileiro teme que a União Europeia reduza as importações de produtos brasileiros em retaliação aos incêndios – anualmente, o bloco compra mais de US$ 5 bilhões de soja brasileira. A França, do principal crítico de Bolsonaro, Emmanuel Macron, e a Irlanda, ameaçaram barrar o acordo do bloco europeu com o Mercosul.
  • G7: O primeiro foro onde a possibilidade de punição ao Brasil deve ser discutido é o G7, encontro dos países mais ricos do Mundo que acontecerá neste final de semana justamente na França. Segundo o presidente brasileiro, “outros países” se ofereceram para ajudar o país a conter as queimadas e a levar a posição ao G7, bloco do qual o Brasil não participa. Na TV ele não falou, mas nas redes sociais Jair Bolsonaro disse ter conversado com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta sexta.

O que os europeus têm a ver com isso? Diversos países da UE possuem legislações internas que impedem o negócio com países onde há descaso com a questão ambiental e a Amazônia é naturalmente visada, por ter um peso gigantesco na produção de oxigênio do mundo. Mas a preocupação não é só essa. Ainda que Macron seja uma das lideranças mundiais que mais prezam pela sustentabilidade, o agronegócio francês perde em competitividade para o brasileiro.

Esse “risco” para a economia francesa foi, inclusive, um dos empecilhos para a conclusão do acordo Mercosul-União Europeia. Macron está usando uma prática protecionista comum, alegando repúdio aos incêndios na Amazônia, que são verídicos e graves, para adiar a ratificação do acordo e, assim, diminuir o estresse com a classe agropecuária francesa.

Redes & Ruas: No Twitter, a hashtag #panelaço estava em primeiro lugar entre os assuntos mais comentados no Brasil no momento da publicação. Os bolsonaristas, por sua vez, impulsionam a terceira colocada, #MacronLies, contra o presidente francês.

Na região dos Jardins, em São Paulo, onde está localizada a redação do 6 Minutos, foi possível ouvir panelas das janelas de prédios residenciais.