Presidente do Banco Central entre 2016 e 2019, o economista Ilan Goldfajn, hoje presidente do Conselho do Credit Suisse no Brasil, disse nesta quarta-feira (4) que o cenário de dólar alto e juros baixos é estrutural e o patamar atual deve ser mantido por um longo prazo.

Para Goldfajn, a taxa básica de juros da economia brasileira, hoje em 5% ao ano, deve se manter baixa, oscilando em torno dessa faixa. É parte de um novo contexto, em que os investimentos públicos se esgotaram e passaram a cair, segurando a pressão na inflação, que também está mais baixa no cenário global.

Durante sua exposição, o ex-presidente do BC foi taxativo em dizer que a tão aguardada participação de grandes estrangeiros “não virá” e que precisamos trabalhar com esse cenário. Na visão de Goldfajn, o afastamento dos grandes investidores é uma combinação da atual aversão global ao risco combinada com os juros baixos do Brasil, que caíram mais rápido do que a média mundial.

O ex-presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, durante evento da gestora Western Asset em São Paulo

O ex-presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, durante evento da gestora Western Asset em São Paulo
Crédito: Guilherme Venaglia/6 Minutos

Nesse novo patamar, o câmbio mais alto é um fator importante. “Está claro que o patamar de câmbio mudou. Não podemos fazer previsão de longo prazo, mas eu me arrisco a dizer que o câmbio vai estar mais depreciado nos próximos dez anos do que esteve nos últimos dez”, diz o executivo, durante evento promovido pela gestora Western Asset.

Qual é a perspectiva para os próximos anos da economia brasileira? Para Ilan Goldfajn, é possível trabalhar com a hipótese de que o Brasil passe a crescer a níveis maiores que a faixa atual em torno de 1% ao ano. O primeiro fator a jogar a favor são os próprios juros baixos, que incentivam a saída da renda fixa e motivam a procura por “ativos da vida real”, como necessários investimentos em infraestrutura.

No entanto, para que isso se confirme, será necessário na visão do executivo que as “travas” ao crescimento sigam sendo retiradas. “O que não permite que a gente cresça a taxas mais altas? Todo o resto. A alta carga tributária, a complexidade de pagar impostos e fazer negócios. Precisamos começar a destravar. Tem também a questão do saneamento, que é onde se ainda se encontra investimento para atrair”, diz.

Para o ex-presidente do BC, assim como ocorreu com a reforma da Previdência, no entanto, propostas como a reforma tributária só serão aprovadas quando a questão for mais sensível e isso for visto como uma “necessidade”.

“Em algum momento, vamos nos perguntar por que o Brasil não cresce. Há cinco ou dez anos, você perguntava isso a um empresário e ele te dizia que era porque os juros eram altos e o câmbio era baixo. Bom, vamos ter que encontrar outro culpado e a reforma tributária é uma grande culpada”, argumentou Goldfajn.

O executivo do Credit Suisse ainda frisou, sobretudo no que diz respeito à infraestrutura, a necessidade mudanças legais que produzam maior segurança jurídica a investidores, ainda muito receosas do risco de mudanças radicais de rumo da política brasileira.

Juros bancários estão caindo, diz Goldfajn. O ex-presidente do BC rebateu críticas de que as sucessivas quedas nas taxas básicas de juros não estão se refletindo em melhora para o consumidor final. Na visão de Ilan Goldfajn, o processo é lento mas está acontecendo, com destaque inicial para os financiamentos imobiliários e automotivos.

“Durante muito tempo, eu respondi porque o Brasil é campeão de juros. Era 20% de juro real ao ano. Vem caindo há duas décadas. Virou 15, 10, 5 e agora a Selic é 1% real. Imobiliário está em 7% ao ano, quando se viu isso? E o financiamento de automóveis? Era 40% e agora está 12%. Está andando, mas não podemos mudar a direção”, justificou.

Para Goldfajn, é natural que produtos com um risco maior embutido, como o cheque especial e o cartão de crédito, com mais impacto sobre os mais pobres, demorem mais a refletir esse movimento. O executivo também argumentou que um bom caminho para que o BC atue no combate a desigualdade social é seguindo com a agenda BC#, facilitando o acesso aos produtos bancários e agindo em favor da integração dos que hoje estão desbancarizados ao mercado financeiro.

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