Se na sexta-feira os mercados foram dormir tranquilos na expectativa de que a epidemia de  coronavírus, infecção que tem a China como epicentro, estava sob controle, o clima era completamente diferente nesta segunda-feira (27). Números recentes falam em 2,7 mil infectados e 81 mortos, a maioria no país asiático.

A evolução rápida dos números de impactos e de países onde há casos registrados acendeu um alerta para o risco de uma crise que extrapole as fronteiras da saúde e afete as dinâmicas dos países e a economia global. Foi diante deste temor que as bolsas fecharam em queda ao redor do mundo nos pregões desta segunda.

O Ibovespa registrou uma queda de 3,29%, caindo para baixo da marca dos 115 mil pontos. Quedas expressivas de empresas de mineração, siderurgia e alimentação protagonizaram o resultado desta segunda. Segundo cálculos da consultoria Economática, as empresas listadas na bolsa perderam R$ 132,4 bilhões em valor de mercado, com destaque para Vale e Petrobras, que encolheram em R$ 16,8 bilhões cada.

Mas qual a relação entre o coronavírus e os mercados? Segundo Enrico Cozzolino, analista de investimentos do banco Daycoval, há dois principais fatores. Um é uma reação quase irracional, de “pânico” em situações de risco ainda não dimensionado. Outro é o fato concreto, de que a persistência do coronavírus pode afetar o crescimento global e os resultados das empresas.

“Estamos vindo de um bull market (mercado em fase de crescimentos sucessivos), então há também uma realização de lucros. Sem saber a dimensão do vírus, o investidor prefere vender quando ainda está 115 mil do que apostar que não vai cair mais e daqui a alguns dias estar 110 mil”, explicou Cozzolino ao 6 Minutos. 

Para Cesar Mikail, gestor de renda variável da Western Asset, o impacto é maior nas empresas que vivem de commodities e exportação, casos dos setores de mineração, siderurgia, combustíveis e alimentação, e de consumo, como varejistas e companhias aéreas.

“Vamos supor que esse vírus se espalhe bastante, o que acontece? Uma queda no crescimento econômico global. Com essa queda, você tem um impacto no resultado das empresas, sobretudo as exportadoras, porque nós exportamos muito para a China. O que o mercado está fazendo? Eu não sei o que está acontecendo, então eu vou baixar meu risco“, explica Mikail.

No cenário de maior aversão ao risco, a tendência dos investidores é transferir as aplicações para ativos e moedas mais seguras, o que fortalece o dólar. A cotação do dólar comercial subiu 0,58% nesta segunda-feira e fechou o dia em R$ 4,21.

Se está mais barato, é hora de comprar? Estrategistas do banco JPMorgan escreveram em relatório que a volatilidade vivenciada em momentos como o de hoje pode criar boas “oportunidades de compra” de ações, com investidores aproveitando que os papeis ficam mais baratos.

Para especialistas ouvidos pelo 6 Minutos, o coronavírus ainda não foi capaz de alterar o cenário-base brasileiro, com sinais consistentes de retomada da economia mantendo a perspectiva de que a bolsa volte a subir. No entanto, as informações sobre a disseminação do vírus ainda estão muito desencontradas e o cenário, portanto, recomenda uma atitude mais cautelosa.

“Eu sugeriria cautela para os dois lados, seja para comprar ou para vender. É prematuro decidir comprar agora e o vírus se alastrar mais. Nestas horas, a melhora coisa é sentar, ler e se informar para tomar a melhor decisão. O que se sabe hoje ainda é pouca informação para tomar uma atitude”, argumenta César Mikail.

Para os próximos dias, a métrica serão as informações sobre o número de casos. Há a expectativa que aumente, uma vez que o vírus leva até 15 dias para se manifestar após a infecção, mas o ritmo vai ditar as preocupações com os impactos econômicos e sociais da doença.

Até o momento, não há nenhum caso confirmado de coronavírus no Brasil. Nos últimos dias, o Ministério da Saúde descartou o quadro para casos antes considerados suspeitos em Belo Horizonte (MG) e Niterói (RJ). O vírus foi identificado primeiro na província chinesa de Whuan, que está isolada pelas autoridades do país.

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