Enquanto o índice geral de inflação, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) registrou recuo de 0,31% no mês passado, os consumidores brasileiros não sentiram esse mesmo alívio ao fazer as compras do supermercado. A deflação, causada principalmente pela queda nos combustíveis, passou longe de alguns itens essenciais — em especial os alimentos.

O que está ficando caro? Dos 60 itens que mais subiram no mês passado, 58 são alimentos. Veja os que tiveram maior alta, de acordo com o IPCA:

  • Cebola: +34,83%
  • Batata-inglesa: +22,81%
  • Mamão: +21,33
  • Cenoura: +19,91
  • Feijão-carioca: +17,29%
  • Morango: +15,61
  • Alho: +15,41%
  • Laranja-pêra: +10,93%
  • Feijão-preto: +10,41
  • Leite longa vida: +9,59
  • Alface: +6,58
  • Ovo de galinha: +6,31
  • Farinha de trigo: +4,76
  • Arroz: +3,88
  • Açúcar cristal: +3,36
  • Café solúvel: +3,24

Por que esses produtos estão subindo? A primeira e principal razão é a demanda. Desde o início da quarentena, a busca por alimentos nos supermercados subiu. “Em um primeiro momento, o medo do desabastecimento gerou uma corrida para fazer estoques. Agora o que percebemos é que as pessoas estão fazendo compras mais volumosas, para evitar várias idas ao supermercado”, explica Julia Braga, professora de economia da UFF (Universidade Federal Fluminense).

André Braz, coordenador do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da Fundação Getulio Vargas, lembra ainda que a pandemia mudou nossos hábitos alimentares. “O isolamento criou a necessidade de se fazer mais refeições em casa”, diz ele. Braz também observa que os itens da cesta básica (arroz, feijão, farinha etc.) sofreram um aumento relevante, o que tende a penalizar os mais pobres.

Mas é só a demanda? Não. Outro ponto importante é a paralisação de diversas atividades econômicas. Embora os supermercados estejam funcionando, por serem considerados um serviço essencial, os canais de produção e distribuição podem ter “quebras”. Um exemplo são os pequenos produtores que deixam de plantar, com medo de não ter para quem fornecer.

“Além disso, temos a entressafra neste período do ano, então já era esperado um certo aumento de preços”, observa a professora da UFF.

Outro ponto sensível é a cotação do dólar. Antes de a pandemia do coronavírus começar, o efeito do câmbio não estava sendo repassado para os produtos, por causa do ritmo lento da economia. O que acontecia era que os fornecedores absorviam parte do aumento e diminuíam as margens, por receio de um reajuste deprimir o consumo.

Agora, como a demanda por alimentos está alta, o efeito do câmbio tem sido repassado integralmente para os consumidores. “O dólar tem esse efeito cumulativo — em algum momento ele aparece na inflação. Nos alimentos, não há restrição de repasse de margem, porque eles são um bem essencial. Você pode abrir mão de tudo, menos de comer”, acrescenta Braga, da UFF.

Embora o Brasil deva ter uma das maiores safras de grãos da história em 2020, o dólar também mexe com os preços dos produtos que plantamos localmente. Dois bons exemplos são o milho e a soja. “Esses grãos são insumos para a ração de suínos, bovinos e aves. O encarecimento do alimento desses animais acaba chegando também ao preço das carnes“, diz Braz, da FGV.

Além do efeito indireto, que aparece no preço das carnes, há ainda o efeito direto. O coordenador do IPC observa que o trigo, também cotado no mercado externo, tem ficado mais caro, o que leva os preços dos pães, bolos e biscoitos para o alto.

E como está a inflação em maio? O dólar segue valorizado, e fechou em R$ 5,76 nesta terça-feira. Já os combustíveis, que foram os grandes responsáveis por um IPCA negativo em abril, devem parar de remar contra.

“A cotação do petróleo, que caiu para mínimas históricas no mês passado, voltou a se recuperar. Isso fará com que os combustíveis deixem de contribuir para a deflação”, afirma André Braz, da FGV.

Ele lembra que a Petrobras já fez dois ajustes recentes no valor da gasolina e do diesel nas refinarias, e que esses aumentos devem chegar ao consumidor em breve. Por outro lado, o coordenador do IPC acredita que os preços dos alimentos devem dar uma trégua, principalmente pela acomodação da demanda. No saldo, o mês de maio não deve repetir a deflação de abril, mas terá um avanço de preços mais módico, na média.

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