A cotação do dólar saltou de R$ 4,02 no início de janeiro para R$ 4,33 nesta quinta-feira (13) e chegou a bater o recorde histórico durante o dia, a R$ 4,38. Esse rápido avanço também foi influenciado por questões internas, como a fala do ministro da Economia Paulo Guedes, que disse ser normal essa cotação recorde da moeda americana, mas o fato é que o câmbio mudou de direção há um bom tempo.

O que aconteceu com o dólar? Se for observado um período mais longo, dá para perceber que não é de hoje que o real sofre com a desvalorização. No início do segundo semestre de 2019, o dólar estava na casa dos R$ 3,70, mas, desde então, tem mantido uma trajetória ascendente — sempre sujeito à volatilidade típica do câmbio flutuante, ou seja, com alguns dias de baixa e outros de alta.

“O dólar está se fortalecendo no Brasil e no mundo todo. Por aqui, a principal razão para isso é o que chamamos de diferencial de juros“, explica Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating.

Agostini ressalta que os juros brasileiros sempre foram, historicamente, mais altos que a média. Como os juros referenciam o retorno das aplicações financeiras, muitos investidores estrangeiros aplicavam seus recursos aqui para colher o benefício. “Eles aceitavam um risco maior em nome de um retorno mais atrativo”, explica.

A Selic, como é chamada a taxa básica de juros, caiu de 14,25% ao ano em 2016 para o atual patamar de 4,25%. Em julho do ano passado, a taxa estava em 6,5% ao ano. Esses cortes, que aconteceram em um período relativamente curto, reduziram a atratividade do Brasil como porto de investimento estrangeiro.

“Como os juros nos Estados Unidos pararam de cair e ainda há chances de a Selic ser cortada, o investidor começa a achar que o diferencial de juros vai se reduzir ainda mais”, afirma Agostini.

Soma-se a isso o fato de que em 2015 o país perdeu o chamado grau de investimento, concedido por agências internacionais de classificação de risco e que funciona como uma espécie de atestado de que a economia é segura para aplicações financeiras. Por esses dois fatores, o fluxo de investimento estrangeiro diminuiu, o que fez com que o volume de dólares em circulação aqui no Brasil caísse, levando a cotação para cima.

Mas é só isso? Os juros explicam a direção que o dólar tem seguido, mas outros fatores influenciaram em episódios específicos. Basta olhar para o movimento desta quinta-feira: depois de o ministro Paulo Guedes dizer na véspera, no fim do dia, que o dólar não está em um valor atípico e que essa cotação mais alta é parte da nova normalidade, a moeda americana abriu o dia em disparada.

“Em momentos normais de temperatura, o câmbio já tem alta volatilidade no Brasil. Agora, com essa tendência de alta, esses eventos ganham peso”, diz Agostini. Ele cita também o crescimento dos casos do coronavírus como causa de volatilidade externa na cotação da moeda norte-americana.

Quando há instabilidade no ambiente externo, é comum que os investidores optem por investimentos considerados “porto seguro”, pois eles têm menos chances de perder valor. Aí o Brasil e os outros países emergentes registram fluxo negativo de capital estrangeiro.

Além disso, a epidemia do coronavírus tem um peso maior pela exposição do Brasil à economia chinesa. “Dado que há uma expectativa de que a economia desacelere na China, e como o país é o maior consumidor das nossas commodities, é possível que as exportações brasileiras caiam e que as empresas tenham uma produção menor. Aí o investidor estrangeiro, que tem dinheiro aplicado aqui, pensa: ‘O que eu estou fazendo no Brasil? Vou comprar títulos da dívida americana, que têm um risco bem menor'”, explica o economista-chefe da Austin Rating.

Outras moedas estão passando pela mesma coisa? Sim. Países emergentes são afetados da mesma forma, por também serem considerados mercados de maior risco. Além disso, como explica Agostini, em razão da desaceleração no crescimento global, a maior parte das economias emergentes está com a inflação controlada e, por isso, também convivem um cenário de juros mais baixos.

“O Brasil não é caso isolado, mas o real é uma das moedas emergentes que mais se desvalorizou, porque tínhamos uma taxa de juros muito alta e historicamente recebemos muitos recursos de investidores estrangeiros que aproveitavam esse alto retorno. Quando eles saíram, foi uma perda de volume significante”, afirma Agostini.

E até onde vai esse dólar mais alto? É difícil fazer uma previsão, mas considerando que a tendência de manutenção de juros baixos — para os padrões daqui — permaneça por um tempo razoável, é provável que o ministro Paulo Guedes esteja certo quando diz que o dólar alto é o novo normal do Brasil.

“O câmbio vai chegar a um nível mais estável quando passar esse momento de ajustes pontuais nos cenários interno e externo. Talvez isso aconteça daqui a três ou seis meses, e até lá a cotação pode subir ainda mais. O que dá para dizer é que hoje há fatores impulsionando mais a alta do que a queda”, explica o analista.

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