As discussões sobre uma recuperação dos índices da bolsa em formato de V, W, ou L parecem não servir para as ações das maiores varejistas brasileiras. Se olharmos para o desempenho desses papeis, o formato comum é um V — e para algumas, esse V tem uma segunda perna bem esticada, subindo para o alto e além. Mas até onde vai essa recuperação?

Antes de tudo, pode me dar um pouco de contexto? Entre as ações do Ibovespa, o pódio de valorização no ano é ocupado por ações de empresas do setor de varejo. Desde janeiro, as ações da B2W acumulam valorização de 65%,as do Magazine Luiza subiram 49%, e as da Via Varejo avançaram 36%.

Mas essas altas são de antes ou depois da crise do coronavírus? Com exceção da Via Varejo, que está mais ou menos no mesmo nível do pico alcançado em fevereiro, as outras duas varejistas superaram a cotação máxima do ano e estão no auge histórico.

Elas estão melhores do que a média da bolsa? Sim. O Ibovespa estava variando entre os 115 e 118 mil pontos na época em que as varejistas atingiram as cotações máximas. Após o tombo causado pelo coronavírus, o índice não se recuperou totalmente e está em 96 mil pontos.

Veja abaixo a comparação do preço do pico pré-pandemia e das cotações atuais:

  • B2W: de R$ 76,56 (em 21 de janeiro) para R$ 104 (na sexta);
  • Magalu: de R$ 58,85 (em 17 de fevereiro) para R$ 71,40 (na sexta);
  • Via Varejo: de R$ 16,64 (em 21 de fevereiro) para R$ 15,18 (na sexta).

Então por que o varejo está indo melhor? Os investidores estão animados com o impulso que a quarentena tem dado ao consumo digital. Embora as lojas tenham ficado fechadas por meses, e do movimento estar baixo — seja pelas medidas de restrição, ou pelo medo de sair de casa — a expectativa é que essas empresas compensem as perdas das vendas físicas com o e-commerce.

“O varejo físico foi prejudicado, houve um impacto grande pelo fechamento das lojas. No entanto, a avaliação é de que a quarentena vai atribuir um legado positivo para as vendas online. Os canais de consumo podem ser alterados”, avalia Lucas Carvalho, analista da corretora Toro Investimentos.

Isso realmente deve acontecer? Que o varejo online não será o mesmo daqui para frente, não há dúvidas. Entidades que representam o setor dizem que a pandemia acelerou o processo de adesão às vendas digitais, e que esse é um hábito que deve permanecer quando a vida voltar ao normal. O problema é que há uma grande depressão econômica à frente, e isso impacta diretamente o poder de consumo das famílias.

De acordo com cálculos do IBRE (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV, a queda de 6,4% no PIB em 2020 deve ser causada principalmente por um recuo de 9% no consumo das famílias. Isso porque esse componente é responsável por 75% do desempenho econômico do país.

“Agora a pandemia está causando esse medo de sair para a rua, mas em um segundo momento o desemprego será o responsável pela queda no consumo”, avalia Patricia Cotti, diretora do IBEVAR (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo).

Nesse cenário, é até possível que o varejo online ganhe força, mas o resultado como um todo será ruim. É como se o segmento ganhasse uma fatia maior de um bolo que ficará menor.

A queda do consumo afeta a todas por igual? Existe uma razão para a ordem do ranking (B2W à frente, seguida por Magalu e Via Varejo). Apesar de atuarem no mesmo segmento, cada uma dessas empresas tem um grau diferente de exposição às vendas físicas. No caso da B2W, essa exposição é zero, já que a operação das Lojas Americanas é apartada da holding, inclusive na bolsa de valores.

“Empresas que têm exposição ao comércio eletrônico estão mais resilientes do que as que dependem do varejo físico. Dito isso, é fato que a Via Varejo e o Magalu estão em estágios bem diferentes no processo de digitalização”, observa Carvalho, da Toro.

O Magalu fez um enorme esforço para criar uma robusta estrutura logística e tecnológica para suas vendas digitais. Quase metade do faturamento da varejista vem das operações do site e do aplicativo, inclusive dos parceiros do marketplace. Já a Via Varejo passou a investir nessa estratégia muito recentemente, desde a troca de gestão e a volta da família Klein ao comando da empresa.

A estrutura de lojas físicas da Via Varejo é enorme — a empresa é dona de mais de 700 lojas da Casas Bahia, Ponto Frio e Bartira. “A empresa está atacando a frente do e-commerce, onde as margens de lucro são maiores”, pontua o analista da Toro. O fechamento de lojas possivelmente fará com que o resultado financeiro da Via Varejo no 2º trimestre seja pior que o das concorrentes.

Nesse caso, é provável que o mercado faça uma correção no valor dessas ações, trazendo os números de volta para a amarga realidade de uma recessão histórica e sem precedentes.

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