A situação é tão chocante que se torna difícil de acreditar: em um século que abrange a Grande Depressão e a crise financeira de 2008, a correção atual causada pelo surto de coronavírus é a mais rápida já registrada. Para entendermos como isso aconteceu, precisamos lembrar o nível de euforia dos mercados recentemente.

Pode ser difícil lembrar, mas há duas quartas-feiras, com manchetes de coronavírus por todos os lados, a Apple liderava um rali que havia elevado seu valor de mercado em US$ 600 bilhões em oito meses. Ganhos semelhantes de grandes empresas de tecnologia levaram os valuations da Nasdaq ao maior nível em duas décadas. Em três meses, o valor de mercado da Tesla deu um salto de US$ 40 bilhões para US$ 170 bilhões, enquanto um grupo de microcaps, que vendem férias espaciais e células de combustível, negociava centenas de milhões de ações por dia.

Movimentos como esses atraíam especuladores aos montes, armados com contas de corretagem sem comissão e embriagados com opções baratas. Alguns desses investidores sentem, pela primeira vez, o amargo sabor da realidade. O fato de a causa ser uma pandemia sem tratamento que desafiou todos os esforços para contê-la ajuda a explicar por que o rali (movimento de alta das ações) de 11 anos está subitamente em risco.

Para o mercado altista terminar, o S&P 500 teria que cair outros 9%, para 2.708,92 pontos, um nível alcançado pela última vez em fevereiro de 2019. Em termos de calendário, é um período relativamente curto para ser desfeito. Compare com o final de 2018, quando o chamado “bull market” (período de otimismo e expectativa de alta nas ações, depois de já subir 20% em relação a quedas recentes) ameaçou chegar perto do fim.

Naquele momento, a queda de 20% em relação ao recorde recente, desvalorização que costuma marcar o início do “bear market” (junto com o pessimismo e a expectativa de queda adicional) exigia a eliminação 17 meses de ganhos.

“As coisas mudaram muito rápido nas duas direções”, disse Mike Stritch, diretor de investimentos da BMO Wealth Management, em entrevista por telefone. “Existe uma possibilidade crescente de que seja um evento muito mais perturbador e até potencialmente um mercado baixista.” Seria o famoso “bear market”.

Lori Calvasina, chefe de estratégia de renda variável dos Estados Unidos na RBC Capital Markets, viajou para seis cidades para visitar clientes e observou uma clara mudança no tom dos investidores.

“A primeira coisa que notamos nesta semana foi um alto nível de nervosismo sobre o coronavírus e os planos pessoais de viagem em particular”, escreveu Calvasina em nota aos clientes. “Se os investidores de ações dos EUA ainda estavam imóveis na semana passada, nesta semana se contorciam nas cadeiras.”

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