A briga entre dólar e Bolsa pode ter se intensificado nas últimas semanas, mas definitivamente não começou agora. O descolamento entre os movimentos da moeda americana e do Ibovespa começou a acontecer em 2017, e está relacionado com o rápido processo de queda da taxa básica de juros, a Selic, e com a perda do selo de bom pagador pelo Brasil.

Dados compilados pela consultoria Austin Rating mostram que por um longo período, entre 2003 (quando os impactos da maxidesvalorização do real foram superados) e o final de 2016, Bolsa e dólar se movimentaram de forma mais sincronizada. Quando o principal índice de ações do Brasil subia em um espaço de tempo mais longo, era mais provável que a moeda americana caísse, e vice versa.

Trajetória do Ibovespa e do dólar (cotação da moeda americana em escala invertida)

O dólar sobe

Em 2015, entretanto, na fase mais aguda da nossa crise econômica, as agências de classificação de risco foram, uma a uma, retirando do Brasil o investment grade (grau de investimento), que é uma espécie de selo de bom pagador de um país. Muitos fundos estrangeiros têm, no seu regulamento, o grau de investimento como requisito básico na hora de optar por uma aplicação.

Foi nesse cenário que os títulos da dívida pública passaram a pagar uma recompensa cada vez menor aos investidores. De 14,25% ao ano, no final de 2016, a nossa taxa básica foi caindo e chegou a 4,25% no espaço de pouco mais de três anos.

Ou seja, o pagamento do governo brasileiro a quem investe em sua dívida se reduziu a um terço do que costumava ser.  Os juros mais baixos afugentaram os dólares dos estrangeiros.

“Veio a queda de juros, por conta da recessão, e assim foi se perdendo o interesse do investidor global no Brasil. Com o Brexit [saída do Reino Unido da União Europeia], houve um rearranjo do portfólio global e nós acabamos sendo preteridos”, afirma Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating.

Outro acontecimento importante jogou a pá de cal no interesse internacional: no mesmo período em que a Selic caía, a taxa dos títulos de dívida do governo dos EUA, considerados os investimentos mais sólidos do mundo, foi aumentando entre o início de 2017 e o final de 2018.

O Brasil se tornou, portanto, menos atraente do que era antes, e os EUA, mais.

Foi nesse ambiente que, segundo o Banco Central, US$ 44,7 bilhões deixaram o país em 2019, a maior retirada líquida desde que o fluxo cambial começou a ser mensurado, em 1982.

A Bolsa também

Apesar disso, a Selic baixa tem um outro efeito na bolsa. Ao derrubar o rendimento em ativos mais conservadores e de renda fixa, os juros baixos tornam o mercado de ações mais atrativo para quem decide investir no Brasil, o que contribui para que o Ibovespa siga subindo.

“O estrangeiro ainda é uma parte importante, mas o investidor doméstico ganhou importância na bolsa. Ele representa mais hoje porque o gringo está vendendo, mas também porque mais investidores deixaram a renda fixa em busca de mais rentabilidade”, avalia César Mikail, gestor de renda variável da Western Asset.

E quando muda?

Ao  realizar o mais recente corte na Selic, o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC deixou claro que está decidido a fazer dessa a última redução do atual ciclo. A perspectiva, no entanto, é que as altas só comecem a partir do próximo ano e, ainda assim, em ritmo mais lento do que havia sido projetado antes.

A taxa de juros a 6,5% ao ano, que era esperada para o final de 2021, agora só deve ser registrada no encerramento de 2022, segundo edição mais recente do boletim Focus, pesquisa do Banco Central com representantes de instituições financeiras. A expectativa é que, no final do ano que vem, a Selic esteja em 6% ao ano.

Especialistas avaliam que, no curto prazo, apenas uma inesperada alta nos juros ou a volta do grau de investimento do Brasil, possibilidades de estímulo para a entrada de moeda americana no país, poderiam devolver o dólar a patamares mais baixos que os atuais.

“A não ser que haja uma mudança significativa, que faça com que os investidores não olhem apenas o diferencial de juros [diferença entre a taxa básica dos EUA e a do Brasil], esse cenário permanece por um tempo. Pelo menos até o início do que ano que vem, quando a Selic começa a subir”, aponta Agostini.

Em comunicados recentes, agências como a Fitch associaram a retomada do selo de bom pagador à continuidade da aprovação de reformas econômicas, mas isso ainda é tratado como uma perspectiva distante.

Quer tirar suas dúvidas sobre o Imposto de Renda? Você pode mandar suas perguntas para o e-mail [email protected]. Quem nos segue no WhatsApp também pode mandar sua dúvida. Se você quiser entrar no grupo, esse é o link: https://6minutos.com.br/whatsapp.