Desde que o coronavírus se tornou uma crise de saúde para o mundo, os mercados financeiros estão apavorados. Temendo que as restrições de circulação de pessoas e mercadorias causem uma recessão econômica, investidores entraram em um ciclo de venda massiva de ações.

O clima de pânico diminui a racionalidade nas bolsas. Em situações de estresse, é normal que o comportamento padrão seja o de manada — quando um mercado vai para cima ou para baixo, todos os outros começam a seguir a mesma direção.

“É isso que estamos vendo agora e é também o que vimos em 2008. Esses momentos de estresse são caracterizados por extremos: quando o mercado está em um dia ruim, todas as ações seguem no mesmo sentido”, explica Victor Hasegawa, analista de ações da gestora Infinity Asset.

Ele conta que, nesse cenário, os preços dos ativos perdem a referência, e começam a variar de acordo com o humor geral. Fica mais difícil calcular qual é o preço justo da ação e de prever para onde vão as cotações.

É isso que tem acontecido por aqui. A correlação entre o Ibovespa (índice da bolsa brasileira) e o S&P 500 (índice da bolsa de Nova York) subiu de 50 pontos para 90 pontos. A última vez em que isso aconteceu foi em 2008. Veja abaixo o gráfico:

Índice de correlação do Ibovespa com o S&P 500 mostra que o mercado brasileiro
Crédito: Dados da Bloomberg, com elaboração da Infinity Asset

E o que isso significa? Em termos práticos, isso significa que a cada 10 pregões, em 9 os ativos brasileiros seguiram na mesma direção que os americanos.

“Em contextos normais, alguns ativos tem correlação positiva, outros negativas e outros não são correlacionados. Se há um foco de estresse, esse padrão é quebrado e tudo vai em uma direção só”, explica Hasegawa.

Por que estamos seguindo os Estados Unidos? Além de serem a maior economia do mundo, os Estados Unidos estão sendo tomados como direção no combate ao coronavírus. “É por isso que não só o Brasil, como outros mercados estão acompanhando as medidas que o mercado americano está tomando”, diz o analista.

Isso deve durar? Provavelmente. O que já está acontecendo, no entanto, é a variação no sinal. Conforme as medidas de incentivo fiscal e monetário começam a se concretizar nos Estados Unidos, os ânimos das bolsas mudaram.

No dia 24, o S&P teve o melhor pregão diário desde 2008. O Ibovespa seguiu a mesma onda, e fechou em alta de mais de 9%. Ontem (dia 25), o mesmo aconteceu: bolsa brasileira e de Nova York para cima.

O que vem depois? “O mercado vai começar a precificar a volta do crescimento econômico, conforme essas medidas forem anunciadas pelos governos”, afirma Hasegawa, da Infinity Asset. Ele alerta que talvez o Brasil fique para trás nesse movimento de retomada, caso os problemas políticos internos se sobreponham.

O presidente Jair Bolsonaro tem acirrado a postura de conflito com os governadores, por causa das medidas de restrição para conter o coronavírus, além de manter a trincheira usual que ele estabeleceu com o legislativo e judiciário.

“O socorro aos estados e ao setor privado devem ampliar o déficit fiscal para além dos R$ 200 bilhões” lembra o analista da Infinity Asset. Ele ressalva que todos os países vão empenhar gastos de bilhões ou trilhões para conter a disseminação do vírus, mas que o Brasil pode ser cobrado, pelo histórico de problemas fiscais.

Se o governo federal continuar piorando o clima de instabilidade, é possível que o Brasil não consiga engatar uma retomada, no pós-crise da doença. Isso mudaria esse padrão de acompanhamento do mercado externo e criaria uma crise doméstica.

No entanto, por ora, os marinheiros que quiserem se lançar à maré do mercado financeiro devem ficar atentos aos ventos do exterior para saber como ajustar as velas.

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