Se as expectativas se confirmarem, 27 empresas brasileiras devem abrir capital na bolsa ao longo deste ano. Será o ano com mais ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) desde 2007, quando a bolsa teve um volume recorde de operações — foram 64 no total. Os cálculos apontam também para um volume recorde de recursos arrecadados nessas operações: os IPOs devem movimentar cerca de R$ 30 bilhões em 2020.

Três companhias já realizaram o IPO neste ano. São elas: a incorporadora Mitre, a empresa de tecnologia Locaweb e a incorporadora Moura Dubeux. Com exceção da última, as outras duas ofertas tiveram a ação precificada no topo do intervalo sugerido, ou seja, levantaram o maior volume de recursos possível. Essa relação de preço é determinada pela procura dos investidores: quanto mais gente fazendo pedidos de reserva das ações, maior o valor.

A combinação de uma lista grande de ofertas e o apetite pelos IPOs levanta uma questão: o investidor está eufórico demais?

Com um quadro de juros baixos e de investimentos em renda fixa dando pouco retorno, aumenta a procura por aplicações mais lucrativas. “A questão é que, como a bolsa está em um ciclo de crescimento desde 2018, há uma percepção de que as ações listadas estão caras demais” analisa Rafael Panonko, economista-chefe da Toro Investimentos. Os investidores olham para os IPOs como oportunidade — são papéis novos, que não passaram por nenhum rali de compra.

Então um IPO é sempre uma boa alternativa? Não necessariamente. Embora os processos sejam iguais, é importante lembrar que por trás de cada operação de abertura de capital há uma empresa. Para decidir se o IPO vale a pena ou não, é necessário entender os negócios da empresa em questão.

“Nesse ímpeto da boa oportunidade, muitos investidores entram em um IPO sem analisar bem a vida financeira da empresa”, alerta Panonko, da Toro.

Como fazer essa análise? O primeiro passo de uma abertura de capital é a divulgação do prospecto. Esse documento reúne as principais informações sobre a empresa: o que ela faz, qual é a participação de mercado no setor em que ela atua, quanto ela espera levantar, o intervalo de preço das ações, o que ela vai fazer com o dinheiro do IPO, como ficará a composição societária, e muito mais.

Por ser um documento longo e repleto de termos técnicos, não são todos os investidores que conseguem decifrar o prospecto. A dica é, então, procurar saber o que os gestores e analistas estão falando daquele IPO. “Hoje você tem as casas de análise, que fazem amplamente esse trabalho”, exemplifica Panonko, da Toro. Mas o melhor mesmo é buscar o maior número de informações em fontes diferentes.

Outros cuidados. Mesmo que você considere aquele IPO uma boa oportunidade, é importante checar se esse investimento está em linha com o seu perfil. Além disso, como todo IPO traz uma empresa nova para a bolsa, é natural que os papéis tenham uma volatilidade alta nos primeiros meses de negociação — isso é parte da tentativa do mercado de encontrar o preço justo daquela ação.

“Não se alavanque, não invista um dinheiro que você não tem”, recomenda o economista-chefe da Toro. Ele lembra, ainda, que a diversificação é a melhor amiga do investidor. Não se deixe levar pela euforia e aplique uma fatia grande do seu patrimônio nas ações de uma única empresa — ainda mais de uma que está apenas começando na bolsa — pois o risco é maior.

Diz Panonko: “eu sempre recomendo que o investidor fuja dessa visão mais especulativa, de tentar ganhar muito dinheiro em pouco tempo. O ideal é que ele tenha uma visão de sócio: estou comprando ações dessa empresa, pois confio nos fundamentos dela em médio e longo prazo”. Entrar em um IPO não deve ser como competir em uma corrida de 100 metros rasos.

As empresas estão se aproveitando desse momento de euforia para tentar levantar mais dinheiro? O crescimento de investidores na bolsa de valores aumenta a liquidez do segmento. Em outras palavras, tem mais dinheiro “sobrando” para ser aplicado em ações.

De olho nisso, e sabendo que há grande expectativa de crescimento da economia, as empresas estão encarando a entrada na bolsa como uma ferramenta poderosa de capitalização. “Você tem os pequenos investidores migrando da renda fixa para a renda variável, por causa dos juros, e tem os chamados rentistas, que são aqueles que procuram boas oportunidades de ganho, mesmo que isso represente mais risco. Isso tudo forma um momento muito propício para captar dinheiro”, diz o economista-chefe da Toro.

Além disso, várias empresas que pensaram em abrir capital no ano passado acabaram postergando os planos, na espera por sinais mais concretos de melhora econômica. “Foi o primeiro ano do governo, então as empresas estavam testando o terreno, para ver se estava firme”, afirma Panonko. Lembrando também que 2019 foi um ano contaminado pelas discussões da reforma da Previdência, uma importante pauta econômica, que só foi aprovada em definitivo em outubro.

O ponto é que, embora tudo indique que haverá opções de sobra para o investidor em 2020, é hora de colocar a euforia de lado e fazer a separação do joio e do trigo — nem tudo que está no mercado vale a pena.

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