No balanço de 2019, o que reluziu foi o ouro: os investimentos atrelados ao produto renderam 28%, perdendo somente para Ibovespa, que subiu quase 32%. Diante do bom resultado, os olhos de muitos investidores brilharam e a busca por esse tipo de aplicação só cresceu.

Mas será que em 2020 o ouro vai ser destaque novamente? Até o dia 17, o título OZ1D (dos contratos de outro negociados à vista) havia se valorizado 3,7% — no mesmo período, o Ibovespa avançou 2,45%.

Por que o ouro está subindo? Antes de qualquer coisa, é importante entender as razões para essa corrida pelo ouro. Esse investimento costuma ser buscado em momentos de tensão econômica: ciclos recessivos, guerras ou outros conflitos políticos, que prejudiquem o crescimento dos países. “Na história do mundo, o ouro é tratado como um ativo que reserva valor e liquidez. Em contextos negativos, os investidores correm para o ouro, porque ele é considerado seguro”, afirma George Wachsmann, sócio-fundador da gestora Vitreo.

Em 2019, pode-se dizer que um pouco de tudo isso aconteceu. Os temores sobre uma recessão mundial cresceram, as tensões do Irã com os vizinhos do Oriente Médio aumentaram, e a guerra comercial entre Estados Unidos e China teve capítulos bem importantes. E agora, 2020 começou com farpas e ataques trocados entre forças americanas e iranianas. Não à toa, instituições como o banco Goldman Sachs estão recomendando a compra de ouro.

Isso significa que é hora de investir no ouro? Como diriam os mais velhos: devagar com o andor. Como explicamos, o ouro costuma avançar quando os fundamentos estão negativos. “O ouro tem essa particularidade: ele tem baixa correlação, ou correlação negativa com a maior parte dos outros investimentos”, diz Wachsmann, da Vitreo. Em outras palavras: quando tudo vai mal, o ouro vai bem.

Isso não aconteceu no ano passado, como contamos aqui. A explicação é que houve um descolamento de expectativas. Enquanto as bolsas de valores nos Estados Unidos e a própria bolsa brasileira iam bem, os economistas começavam a dizer que a economia estava apresentando os primeiros sintomas de uma desaceleração, e que os conflitos políticos só abreviariam essa crise.

Esse cenário não se consolidou ainda, embora parte das expectativas continuem no vermelho — prova disso é o avanço do ouro neste ano.

Mas então eu só devo apostar no ouro quando as coisas estiverem ruins? Não necessariamente. Wachsmann, da Vitreo, diz que o ouro funciona como um seguro na carteira do investidor. “Você deve ter, assim como o seguro de um carro, mas aí você torce para não precisar dele”, diz. Ele afirma que a subida do ouro fez as pessoas olharem o ativo como um investimento de risco, que pode render ganhos de curto prazo, quando na verdade essa é uma aplicação de segurança.

Ele diz que a alocação de recursos em produtos relacionados ao ouro deve ser pequena, e funcionar mais como uma proteção: algo como 5% a 10% do patrimônio.

Como investir em ouro? O ouro tem uma peculiaridade: ele é um produto que pode ser físico (ouro em gramas, ou em barras) ou lastreado. Claro que sempre há quem guarde ouro físico em cofres, ou no banco (alô, Silvio Santos!), mas existem outras formas de investir nesse produto.

A B3 tem contratos de negociação de ouro à vista e em contratos futuros. Além disso, o contrato pode variar de acordo com a quantidade de ouro. Aqui estão os títulos:

  • OZ1D: é o contrato do lote-padrão de ouro, de 250 gramas, negociado à vista.
  • OZ2: é o contrato fracionário de ouro de 20 gramas.
  • OZ3: é o contrato fracionário de ouro de 0,225 gramas.
  • OZ1: é o contrato futuro de ouro.

O primeiro é o que tem mais liquidez: os outros, apesar de terem valores unitários menores, têm liquidez reduzida. As corretoras costumam cobrar taxas de corretagem para quem quer investir em ouro, e a B3 cobra uma taxa de custódia, de acordo com o volume negociado.

É só isso? Além das opções de contratos na B3, é possível investir em fundos de investimento em ouro.

A própria Vitreo tem um fundo que investe nos “tesouros”: é o Vitreo Ouro FIC FIM. Esse fundo aplica 80% no título OZ1D e 20% em ETFs de ouro no exterior. Wachsmann explica que o fundo não tem nenhum mecanismo de hedge — sendo assim, o rendimento é afetado também pela variação do câmbio. Outros fundos, como os do BTG e da XP Investimentos têm mecanismos de proteção contra a desvalorização do real: ou seja, o investidor só colhe o resultado individual do ouro.

O sócio-fundador da Vitreo diz que o fato de o fundo acompanhar também o câmbio significa uma proteção extra: “é como se, em uma única apólice de seguro, a carteira do investidor recebesse duas proteções”. Lembrando que o dólar é o segundo porto seguro do investidor, quando o contexto econômico é ruim — é por isso que os fundos cambiais são considerados um colchão de segurança para o investidor, e nós falamos sobre isso nesta outra matéria.

Sendo assim, a cotação do ouro e da moeda americana costumam seguir na mesma direção. Prova disso é que o dólar também está subindo, em relação ao real. Isso explica, também, por que o fundo da Vitreo foi melhor que a própria cotação do ouro, neste ano: o Vitreo Ouro FIC FIM rendeu 5,7% até o dia 17. “Continuo achando que as pessoas deveriam ter esse seguro, mas não tenho certeza se as pessoas vão continuar ganhando dinheiro se tudo for bem na economia mundial, agora em 2020”, afirma Wachsmann.

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