Uma das marcas do momento atual do mercado financeiro no Brasil é a diversificação das fontes de informação para os investidores. Casas de análise, sites de notícias financeiras e influenciadores digitais multiplicaram-se e se tornaram fenômenos de audiência, refletindo o crescente interesse dos brasileiros pelas mais diversas aplicações, de ações e fundos a debêntures. Tudo de forma natural, sem a participação de reguladores.

O fenômeno entrou no radar da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). A entidade pretende estreitar o relacionamento com esses “geradores de informação”. “Podemos ajudar no conteúdo, por exemplo, para que as informações tenham maior precisão”, diz Zeca Doherty, superintendente-geral da Anbima.

Ele diz que as novas fontes estão contribuindo para o desenvolvimento da indústria de investimentos , mas, ao mesmo tempo, revela preocupação com o papel desempenhado principalmente por casas de análise. “As consultorias (como ele chama as casas de análise) hoje assumem algumas funções que são reguladas, quase como um agente autônomo ou um consultor registrado na CVM. Ou montando uma carteira como se fosse um gestor”, afirma. Uma alternativa seria convidá-las a entrar na agenda da associação de forma voluntária, um passo inicial para a autorregulação.

Leia a seguir a segunda parte da entrevista de Doherty ao 6 Minutos.

Casas de análise, sites de notícias, influenciadores digitais… Hoje não faltam fontes de informações para as pessoas. Muitos fazem recomendações de investimento. Qual a avaliação da Anbima sobre esse fenômeno?

A gente vem discutindo esse tema. É algo muito positivo para a indústria de investimentos, porque está trazendo educação financeira e desperta o interesse das pessoas, com capilaridade. Como a Anbima enxerga? Antes de regular ou de autorregular, é importante se aproximar desses três grandes, vamos chamar assim, geradores de informação para entender como eles trabalham para aí então nos posicionarmos. Podemos ajudar no conteúdo, por exemplo, para que as informações tenham maior precisão.

Temos bastante contato com os sites e contribuímos com informações para muitos deles. Estamos mapeando as consultorias (casas de análise), porque não estão na Anbima nem na CVM. Eventualmente, podemos até convidá-las para entrar na agenda da associação. É um caminho a ser considerado. As consultorias hoje assumem algumas funções que são reguladas, quase como um agente autônomo ou um consultor registrado na CVM. Ou montando uma carteira como se fosse um gestor. Queremos nos aproximar delas.

As plataformas abertas de investimento foram uma conquista para o consumidor. Hoje é muito fácil escolher qualquer produto em questão de alguns cliques. Dá para fazer algo para minimizar os riscos?

Dá para fazer muita coisa. Do lado do investidor, reforçar a educação financeira, de forma maciça, sobre produtos e apresentação de riscos. O investidor tem que estar minimamente educado para isso, independentemente se buscou informação no YouTube, ligou para um amigo ou foi direto na plataforma e comprou um produto.

E dá para fazer muita coisa em relação às próprias plataformas e seus agentes autônomos ou consultores. Esses profissionais, seja só apresentando os produtos ou já fazendo a recomendação, cada um com seu papel, possuem também um papel de educação financeira: isso inclui como apresentar o produto para o investidor, com transparência, mostrar exatamente o que ele paga, as comissões etc.

Alguns produtos, como os fundos imobiliários, se tornaram uma febre entre investidores. Há muita recomendação em sites especializados. Isso preocupa?

A preferência do investidor funciona em ondas. Teve um momento em que a rentabilidade do fundo imobiliário caiu e a procura diminuiu. Agora, com a redução da taxa de juros, investidores procuram produtos mais rentáveis.

Às vezes as pessoas esquecem que um produto mais rentável oferece maior risco. Falando agora não só de fundo imobiliário mas de outros fundos: entra aí a importância da expertise do gestor. E isso tem a ver também com algo que é muito tratado por nós, que é a definição do perfil do investidor (se ele tem perfil arrojado, moderado ou conservador, quais os seus objetivos com o investimento, os prazos etc.).

Ou seja, tem o lado de quem está vendendo e o lado do perfil e da educação do investidor. É uma bandeira nossa há muitos anos: há regras para o gestor e há outras regras se ele estiver também distribuindo o produto. E a gente acompanha e fiscaliza.

No fim do dia, isso faz a diferença para quem está comprando o produto, para saber como funciona, se a liquidez é diferenciada, quais os riscos. O investidor que se acostumou a colocar seu dinheiro num fundo DI, por exemplo, estava acostumado com rentabilidade alta, liquidez imediata e um risco relativamente baixo. Há uma migração para outros produtos e estamos acompanhando esse tema com atenção.

Leia mais: Não adianta o mercado crescer e enfrentar problemas mais adiante, diz Anbima

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