Bancos e financeiras estão oferecendo aos clientes alternativas para lidar com a crise econômica causada pela pandemia do coronavírus. As principais medidas vão de adiamento do pagamento de empréstimos ou financiamentos até renegociação de dívidas em atraso. Mas será que vale a pena jogar esse compromisso lá para frente?

6 Minutos conversou com a planejadora financeira Annalisa Dal Zotto, fundadora da consultoria Par Mais, e com o economista Flavio Calife, da Boa Vista SCPC, para saber a resposta para essa pergunta.

Entenda as condições que estão sendo oferecidas

Muitos bancos anunciaram que oferecerão pausas de 2 a 6 meses para o pagamento de parcelas e financiamentos. No entanto, antes de contratar essa carência é importante saber se há multas e se os juros aumentarão. Consumidores têm relatado que, ao fazer o pedido de pausa nos pagamentos, os bancos estão oferecendo na verdade uma renegociação, parcelando o saldo devedor em mais vezes, mas com acréscimo de juros e multa.

A dica é, então, entender as condições e comparar os juros (caso existam). Se você tiver perdido a renda e não estiver em condições de pagar, é importante fazer as contas para decidir se vale a pena tentar contratar outro empréstimo para quitar essa primeira dívida. Mas atenção: essa opção só é vantajosa se esse empréstimo tiver custos menores que as oferecidas pelos bancos para o adiamento.

Busque a renegociação

Caso você esteja em um financiamento de juros altos e não puder fazer a troca por um empréstimo mais barato, a dica é renegociar. Procure a instituição financeira, explique sua situação e veja quais condições serão oferecidas.

“Vale a pena negociar, e tem muita gente fazendo isso. A crise atual afeta 100% dos brasileiros, estamos todos no mesmo barco, então a abertura das instituições para o diálogo tem sido maior”, diz Annalisa.

Verifique se essas parcelas adiadas serão sobrepostas a outras parcelas regulares

A maioria dos bancos tem colocado essas parcelas adiadas para o fim do financiamento, mas há casos em que essa conta chega mais cedo. Condições que impliquem na sobreposição de parcelas (ou seja, no pagamento de duas ou mais parcelas no mesmo mês) devem ser avaliadas com cuidado.

Se você não tiver condições de arcar com a despesa dobrada, o melhor é não postergar o pagamento.

Se não houver sobreposição nem multa, e se os juros não forem maiores, cogite a pausa

Caso as condições sejam boas, é hora de pensar no adiamento. Annalisa explica que, já que ninguém sabe quanto tempo a crise durará, os programas de carência dão a chance de a pessoa usar o dinheiro para compor uma reserva financeira. “Em um período de incerteza estender a alavancagem é benéfico. Se a pessoa ficar desempregada, ganhar esse fôlego no bolso é um bom negócio”, diz.

Flavio Calife, economista da Boa Vista SCPC, pondera que a incerteza também vale para o lado negativo. “Quem está trabalhando hoje não tem garantias de que estará empregado daqui a alguns meses, por isso é preciso tomar muito cuidado com o adiamento da dívida”.

A opção é mais vantajosa para quem tem dívidas longas, como financiamentos habitacionais e de veículos. Como os bancos estão jogando essas parcelas para o final do fluxo de pagamento, essa preocupação some do horizonte do curto prazo.

Os especialistas dizem que só deve tomar a decisão de postergar a dívida quem não estiver em condições de pagar ou tiver disciplina para guardar o dinheiro poupado.

“Se você perceber que não vai ter dinheiro para quitar as parcelas e que vai entrar no negativo por isso, então a carência é a melhor opção”, observa Calife, da Boa Vista. Como os juros do rotativo do cartão e do cheque especial são altíssimos, pagar o financiamento e recorrer a esses dois instrumentos é uma má ideia.

Lembre-se que essa conta vai chegar

A opção é de adiamento das parcelas, e não do perdão desses pagamentos. Sendo assim, é importante lembrar que essa conta vai chegar em algum momento, e é mais importante ainda se planejar para conseguir quitar a dívida.

“O cliente precisa lembrar que vai pagar juros pelos meses a mais de financiamento de contrato”, alerta a planejadora financeira da Par Mais.

Calife, da Boa Vista, lembra que acumular essa dívida com outras que surgirem pode causar um efeito de bola de neve, comprometendo as finanças em longo prazo.

Organize seu fluxo de receitas e despesas

Se você precisou ou decidiu postergar, é hora de organizar todo o dinheiro que vai entrar e sair do caixa nos próximos meses.

A boa e velha planilha de controle de ganhos e gastos é uma mão amiga nessas horas. Você deve listar toda a receita que está prevista para os próximos meses (incluindo salário, benefícios, rescisões etc.) e todas as despesas (financiamentos, empréstimos, dívidas do cartão de crédito e despesas fixas). Não se esqueça de colocar essas parcelas que estão sendo postergadas agora.

“Se fizer a planilha direitinho, a pessoa vai conseguir identificar quando sua despesa ficará maior e poderá se preparar pra isso” explica Annalisa.

Nem pense em sair torrando o dinheiro poupado

O valor que deixar de ser aplicado no financiamento ou empréstimo deve se transformar em reserva de caixa — ou deve ser usado para casos de extrema necessidade, como para a compra de itens de consumo essenciais.

“O objetivo é dar fôlego para o fluxo de caixa. O dinheiro deve ser guardado para que a pessoa tenha uma reserva para períodos de falta de dinheiro”, recomenda a planejadora financeira.

Se seu objetivo for gastar o dinheiro o melhor é não adiar, para não criar uma bola de neve no futuro.

Não só guarde, aplique esse dinheiro

Você pode (e deve) investir esse dinheiro para protegê-lo ao menos da inflação. A dica aqui é que ele seja aplicado em um investimento conservador, com liquidez imediata — afinal, você pode precisar desses recursos a qualquer momento.

“Não é para tentar especular, porque o compromisso pode ser de curto prazo. O ideal é um investimento em renda fixa. Pode ser um Tesouro Selic, um fundo DI com taxa de administração baixa, um CDB de liquidez diária, ou até mesmo a poupança”, afirma Annalisa.

Se já tiver uma reserva financeira que te ampare nos imprevistos, considere pagar em dia

Quem já deu os primeiros passos da organização financeira e tem uma reserva de recursos guardada deve considerar manter os pagamentos, e abrir mão do benefício da pausa. Nesse caso, como já há uma reserva para emergências, o melhor é não agir para prolongar a dívida, principalmente no curto prazo.

“Quem tem uma situação financeira estável deve sempre buscar a liquidação dessas dívidas em menor prazo”, aconselha Calife, da Boa Vista.

Se a situação melhorar, quite essas parcelas antecipadamente

Caso consiga navegar bem durante a crise, o cliente pode quitar as parcelas em aberto antes do fim do financiamento.

“Se por acaso a situação financeira for melhor que a esperada, é possível pagar antecipado, e ainda abater os juros que seriam cobrados”, lembra a planejadora da Par Mais.

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