O dólar registrou, nesta terça-feira (18), recorde nominal de cotação — outra vez. A moeda americana fechou o dia em R$ 4,358 e superou o maior valor registrado anteriormente, que havia sido alcançado na última quarta-feira (12). Esse movimento de alta se desenvolve desde o ano passado e a tendência é que ele continue a acontecer.

E quem pensa que o dólar mais caro mexe só com a vida de quem precisa comprar moeda estrangeira — seja para viajar, ou para outras despesas — está enganado. Vários produtos que consumimos no dia-a-dia são negociados no exterior e por isso são afetados pela variação do câmbio.

Pode me dar exemplos? O petróleo é um dos produtos mais expostos ao câmbio. Isso porque ele é cotado no mercado internacional e o Brasil importa petróleo do exterior para produzir combustíveis a partir do óleo bruto, como gasolina, diesel e querosene. O efeito nos dois primeiros pode ser sentido direto na bomba dos postos e o terceiro costuma afetar o preço das passagens aéreas, já que as aeronaves são abastecidas com o querosene. Vale lembrar que o tipo de petróleo que extraímos aqui não é o ideal para produzir combustíveis — por isso é necessário trazer o produto de fora.

Grãos e alimentos em geral também são afetados pelo dólar — mesmo aqueles que o Brasil produz em ampla escala. A soja e o milho, por exemplo, são negociados na bolsa de Chicago e mesmo os produtores que vendem diretamente para o mercado doméstico acompanham os preços de fora. O farelo desses dois grãos serve para alimentar aves e suínos e por isso essas commodities colocam o preço dessas proteínas exposto ao dólar. Até mesmo o boi é alimentado por esse tipo de ração quando o pasto está mais seco.

Outro alimento que está no cotidiano dos brasileiros que é afetado pelo dólar é o trigo. O Brasil importa esse cereal dos vizinhos sul-americanos — por isso, a cotação também é dolarizada. Pães, bolos, e outros alimentos que levam farinha de trigo costumam ser afetados por essas variações.

Esses produtos estão encarecendo? Os números do IPCA (o índice oficial de inflação) não mostram o repasse total do dólar para o preço desses produtos. “Essa não-contaminação é explicada pelo contexto econômico. Estamos no terceiro ano de PIB que cresce em torno de 1% — isso após dois anos de retração da economia — e o desemprego está alto. Tudo isso indica uma demanda comprimida, que é comprovada pela inflação mais baixa”, explica André Braz, coordenador do IPC (Índice de Preços ao Consumidor), da FGV.

Ele diz que os produtores, o comércio e os serviços não estão repassando os custos mais altos, relacionados ao dólar, pelo receio de que esse reajuste reduza ainda mais o consumo. “A população está com o poder aquisitivo reduzido, e o setor produtivo está comprimindo as margens”, diz Braz.

Vamos aos números do IPCA. Enquanto a moeda americana acumulou alta de 8,45% em janeiro, o custo das passagens aéreas encolheu mais de 6%. O mesmo aconteceu com as carnes, que ficaram 4% mais baratas no mês.

Já os combustíveis tiveram altas mais consistentes no mês passado: a gasolina subiu 0,8% e o diesel 1,3%. O mesmo para o pão francês, que encareceu 1,3%. São aumentos significativos, considerando que o IPCA de janeiro foi de 0,21%, mas não são suficientes para repor o efeito do dólar.

E se olharmos os números da inflação do ano passado? O quadro permanece o mesmo. Veja abaixo:

  • Passagens aéreas (+2,25%);
  • Pão francês (+1,5%);
  • Eletrônicos (+0,02%) e eletrodomésticos (-0,38%).
  • Gasolina (+4%)

Todos esses produtos subiram menos que a inflação geral, que foi de 4,31%. Já outros produtos subiram mais do que a média. Veja abaixo:

  • Carnes (+32,4%);
  • Diesel (+5,85%);
  • Gás encanado (+15,9%);
  • Gás veicular (+9,7%).

O que aconteceu com a carne e os combustíveis? Esses produtos foram afetados por outros fatores, sem relação com a moeda norte-americana. A carne encareceu pois os produtores brasileiros passaram a exportar um volume maior para a China, o que reduziu a oferta interna. Já os combustíveis subiram por causa da cotação do barril de petróleo, que registrou alta de 33% em 2019.

“Por enquanto, a inflação só aparece nos produtos que tiveram o preço reajustado pela demanda. A carne é um exemplo e o mesmo pode acontecer com os grãos”, explica o especialista da FGV.

A inflação deve ser afetada pelo dólar daqui pra frente? As expectativas do mercado são que o dólar permanecerá mais alto nos próximos meses, principalmente por uma questão de conjuntura. Nós explicamos melhor esse fenômeno em outra matéria.

Se o dólar vai ficar mais alto e se a economia pode começar a crescer em um ritmo mais acelerado, a inflação pode começar a subir? “Crescimento significa geração de emprego e renda, o que sustentaria um nível de consumo maior. As margens comprimidas poderiam voltar a crescer, tornando o processo inflacionário mais persistente lá na frente”, analisa André Braz.

Ele pondera que esse é um efeito que não deve acontecer ainda neste ano. Observa o coordenador da FGV: “Eu não acredito que o ano seja palco de grande recuperação da atividade — basta ver que o mercado está reduzindo as expectativas para o PIB e inflação. Entretanto, é natural que em um contexto de crescimento, que deve começar em 2021 e 2022, haja espaço para que esse repasse volte a acontecer”.

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