A importância de ações relacionadas a reciclagem, redução da desigualdade social, energias renováveis, sustentabilidade e microcrédito deixaram de ser assunto apenas de ativistas dessas causas. Empresas já consolidadas e outras nem tanto descobriram que dá para ganhar dinheiro com o chamado investimento de impacto social. Esse é o caso do Programa Vivenda, que reforma e financia obras em casas na extrema periferia de São Paulo.

No mundo, já são US$ 500 bilhões alocados em investimentos de impacto social. O Brasil ainda engatinha nesse segmento: investimentos de impacto social somam US$ 300 milhões no país. É muito pouco, consideram analistas ouvidos pelo 6 Minutos.

Mas é justamente a situação econômica do país, que viu a última crise dizimar empresas e aumentar o desemprego e a desigualdade, que faz com que investimentos dessa natureza tenham um potencial enorme de crescimento. E em 2020, com mais otimismo sobre o desempenho da economia e menos incertezas, esse mercado deve ganhar tração.

Mas o que é investimento de impacto social? De uma forma simples, são investimentos em projetos ou empresas que fazem o bem, sem abrir mão do retorno financeiro. As causas extrapolam ações nas áreas socioambientais e alcançam também projetos que incentivam a geração de renda.

Qual a diferença entre o investimento convencional e o de impacto? “No primeiro, a intenção da alocação do dinheiro se limita ao retorno financeiro. No investimento de impacto, o objetivo da alocação é gerar impacto e obter retorno financeiro. Os dois objetivos ficam na mesma frase”, explica Daniel Izzo, co-fundador da Vox Capital, gestora de investimentos de impacto social.

Como uma empresa convencional é diferente de uma de impacto? No investimento convencional, empresas como Ambev ou Vivara negociam ações na Bolsa e usam o dinheiro captado com investidores para construir fábricas, abrir lojas e remunerar seus acionistas. Em ambos os casos, pessoas são contratadas e empregos gerados e até há uma melhora na vida dos envolvidos, mas de forma secundária. Já o investimento de impacto social é a aplicação de recursos em empresas cujo produto é o próprio impacto: reforma em casas de famílias em condições precárias, fabricação de bicicleta elétrica e microcrédito para pequenos empreendedores, por exemplo.

A retomada da economia brasileira abre mais espaço para investimento de impacto social
Crédito: Shutterstock

Por que esse tipo de investimento ainda está engatinhando? Porque diferentemente do investimento convencional, que considera apenas o risco (volatilidade, probabilidade de perda do recurso) e o retorno (quantidade de lucro possível ao negócio), os aportes de impacto analisam também, como o próprio nome diz, a tese de impacto. Essa tese questiona uma série de fatores (O que quer esse investimento quer mudar? Em quanto tempo? É de fato impacto social? Ao longo do tempo, está mesmo mudando alguma coisa?). No Brasil e no mundo, o sistema financeiro ainda está estudando a melhor técnica para mensurar o que é impacto social e casar isso com a análise do risco e do retorno.

A CVM (Comissão de Valores Mobiliários), responsável pela regulação do mercado de capitais no país, montou grupos de estudo com especialistas do mercado, que se reúnem no Lab de Inovação Financeira desde 2017.  O objetivo é estruturar métricas para negócios de impacto. Como serão analisados os riscos do investimento, em quanto tempo o retorno deve acontecer e qual será o produto – debênture, crowdfunding, título verde? O impacto está mesmo acontecendo? Se não, é hora de tirar o dinheiro alocado ou vale esperar?

A importância da confiança: A estruturação dessas análises trará mais confiança ao setor de investimento de impacto. “No sistema financeiro, a confiança é um dos principais elementos para eficiência de alocação”, diz José Alexandre Vasco, superintendente de proteção e orientação aos investidores da CVM. Ele lembra que já foi comum no exterior, principalmente nos Estados Unidos e no Reino Unido, a venda de títulos que, no fim das contas, não estavam contribuindo para minimizar o impacto ambiental.

Como isso vai se aproximar do pequeno investidor? Será preciso combinar opções de baixo risco com um tíquete mínimo de até R$ 1 mil. A liquidez, capacidade da aplicação ser convertida em dinheiro em curto período de tempo, deve ser alta — hoje o prazo é de mais de dois anos, na média. Esse novo cenário depende de mais empresas de impacto, plataformas de investimento e avanço das regulações.

E como eu invisto? A SulAmérica lançou no mercado o Total Impacto FIA, um fundo de ações ambientalmente sustentáveis, com aporte mínimo de R$ 100. O fundo Warren Green está disponível para pequenos investidores e faz aportes em empresas nacionais e estrangeiras como Natura, Tesla e Beyond Meat. No mundo das plataformas de crowdfunding, a Sitawi fará uma rodada no fim de março. Dá para se cadastrar e receber informações neste link. Na Vox Capital, novos projetos devem ser lançados ao longo do ano.  Também vale dar uma olhada na Kria.

Um detalhe para ficar atento: Nem todo fundo com “impacto” no nome é de fato de impacto social. Algumas gestoras fazem investimentos convencionais, em empresas que não geram impacto, e abrem mão da taxa de performance ou administração para doá-las a ONGs ou entidades sociais. Nesse caso o que ocorre é uma doação do lucro, também chamado de filantropia.

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