O pânico visto no mercado financeiro nesta segunda (9) foi daqueles que ficam para a história. A queda de 12,2% no Ibovespa, principal índice da bolsa de valores, não era vista havia mais de 21 anos, desde a crise da Rússia, em 1998.

O agravamento da crise foi desencadeado por dois fatores principais. O primeiro é o aumento de casos de coronavírus na Europa e nos Estados Unidos, que levou autoridades a tomar medidas adicionais de precaução para conter a disseminação da doença. Na Itália, todo o país foi colocado sob quarentena.

O segundo fator foi a baixa inesperada no mercado de petróleo. Países da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) não conseguiram chegar a um entendimento com a Rússia sobre a produção e o preço da commodity, e a Arábia Saudita resolveu retaliar o país de Vladimir Putin, reduzindo o valor do barril para a exportação.

“Os impactos dessa crise do petróleo ainda são incertos. Mas é importante dizer que já tivemos vários momentos parecidos, na última década, e que depois o mercado se recuperou”, lembra Rafael Panonko, economista-chefe da corretora Toro Investimentos.

Desde o início do ano, o Ibovespa acumula queda de 22,37%. Títulos do Tesouro Direto perdem rendimento. Fundos multimercados estão em queda. Fundos de renda já rendiam pouco por causa da taxa Selic nos menores níveis da história. Em momentos assim, com perdas para todos os lados, qual a melhor maneira de agir?

Apesar de não ser a primeira e nem a última crise do mercado financeiro global e brasileiro, essa é a primeira forte baixa enfrentada por milhares de investidores que entraram na bolsa de valores de três anos para cá. O 6 Minutos conversou com especialistas para saber quais orientações podem ajudar neste momento de volatilidade.

Calma, paciência e sangue frio

A recomendação unânime entre especialistas é não tomar decisões no calor da emoção. É importante que o investidor tenha consciência de que ninguém sabe, e nem tem como prever, qual é o fundo do poço. “Temos aconselhado os investidores a não acreditar que essa é a última queda e a não confiar que é hora de sair comprando tudo. O cenário ainda pode ficar pior”, diz Henrique Esteter, analista da corretora Guide Investimentos.

A recomendação de Rodrigo Franchini, sócio da assessoria de investimentos Monte Bravo, é parecida. Ele conta que poucos clientes decidiram vender as ações neste momento de estresse, mas entende que esse patamar pode subir se as perdas da bolsa se aprofundarem. “Ninguém sabe qual é o colchão da bolsa. Nós recomendamos que o investidor mais conservador não venda a posição, para não realizar o prejuízo, mas que não aumente sua exposição à bolsa”, disse.

Se tiver ciência dos riscos e aceitar perdas, compre

Por outro lado, mesmo sem conseguir adivinhar onde fica o fundo do poço, há analistas que enxergam alguma oportunidade para tentar tomar proveito do momento. Embora essa seja uma decisão só para quem tem tolerância maior ao risco e a perdas, eles dizem que é possível surfar na tempestade do mercado.

“Os investidores que têm apetite para comprar ações podem fazer isso gradualmente. Por exemplo: a ação caiu 20% hoje, então ele pode comprar um pouco. Na semana que vem compra um pouco mais. Assim, ao longo do tempo ele faz um preço médio, o que torna a situação menos desconfortável”, recomenda Panonko, da Toro. Ele diz que, embora o momento seja de pânico, a visão de longo prazo ainda é positiva para as ações.

Alberto Amparo, analista de investimentos da casa de análise Suno Research, vê ainda mais potencial na janela atual da bolsa.”O mercado de ações é um mecanismo de transferência de dinheiro dos impacientes para os pacientes”, afirma.

Amparo diz que o ideal é focar em ações de empresas sólidas, que tenham um balanço equilibrado — não é hora de se expor a empresas muito endividadas, por exemplo. “O valor da empresa está na capacidade de geração de receita em longo prazo. Uma boa empresa pode ser um mau investimento se o preço da ação estiver caro. Agora, com a queda nas cotações, é uma oportunidade de comprar papéis de boas empresas”, diz.

Se não puder esperar, estabeleça um limite para as perdas

A paciência para navegar por momentos de pânico só existe, claro, se o investidor puder conviver com as perdas. Caso o patrimônio entre em risco, o ideal é começar a fazer planos para o pior. Os fundos de investimento fazem isso, com o mecanismo chamado de stop loss (interrupção de perdas).

Quando o preço de um ativo em carteira chega a um piso pré-determinado, a gestora é obrigada a se desfazer dele, para preservar pelo menos uma parte do patrimônio dos cotistas. O ideal é que isso não aconteça com o investidor comum, que não é profissional, mas ele pode adotar um gatilho parecido para se proteger.

“Todo investidor tem que ter um stop loss, se não a perda pode ser de todo o patrimônio. O que temos recomendado, especialmente para quem tem esse limite, é exercer a estratégia de se proteger através de opções“, afirma Esteter, da Guide. Lembrando: as opções são uma espécie de contrato futuro de ações, em que o investidor garante o direito de comprar ou vender os papéis por um valor pré-determinado.

Por fim, adote ativos de segurança

Outra estratégia indicada por analistas em momentos como o atual é aumentar a participação em investimentos que são considerados portos seguros. A Monte Bravo tem acompanhado o desempenho de fundos cambiais (saiba como funcionam) e fundos de ouro (entenda). Esses ativos funcionam como uma espécie de seguro para a carteira, pois costumam subir quando o mercado vai mal.

“Estamos em um momento de correção de preços, de realocação de investimentos e busca de mais segurança. A forma como o investidor olhava para a bonança dos mercados está mudando. Quando isso acontece, a tendência é a saída da renda variável e alocação em ativos fortes, como o dólar”, define Walter Franco, professor de Economia do Ibmec-SP.

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