O crescimento acelerado do mercado brasileiro de investimentos nos últimos três anos deixou em evidência os números superlativos do segmento: da captação de recursos por fundos à valorização das ações na bolsa, sem contar os celebrados e sucessivos recordes no número de novos investidores que são pessoas físicas, os dados impressionam.

Mas, do lado da oferta, há igualmente um segmento em rápido crescimento: quase 4 mil fundos de investimento surgiram entre o início de 2017, ano que representa a virada da indústria, e outubro passado (dado mais recente disponível), o que representa um crescimento de 25%. Uma centena de gestoras (também conhecidas como asset management, designação em inglês), que são as instituições que administram os recursos dos investidores, foram criadas no período, uma expansão perto de 20%.

O número de profissionais que obtêm a CGA (Certificação de Gestores Anbima) a cada ano saltou quase 90%, de 186 em 2016 para 347 no ano passado. Ao todo, mais de 1.800 profissionais possuem a certificação para fazer a gestão de recursos de investidores.

São números expressivos que, deixando a compreensível euforia de lado, despertam uma preocupação nas lideranças do mercado financeiro: como garantir que o crescimento aconteça de forma saudável, contendo os excessos e protegendo os investidores, principalmente os mais novos que até hoje só conheceram o mercado na alta?

“É fundamental que o crescimento da indústria aconteça de forma sustentável. Isso passa pelo cumprimento das regras, com educação financeira para o investidor e responsabilidade fiduciária do gestor”, afirma Zeca Doherty, superintendente-geral da Anbima, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais.

A responsabilidade fiduciária é o dever do profissional do mercado de colocar o interesse do investidor em primeiro lugar, evitando conflitos de interesses que possam fazê-lo escolher o que lhe beneficia mais.

“Não adianta crescer e lá na frente ter problemas que podem contaminar uma indústria inteira, pois estamos tratando do dinheiro do investidor”, diz Doherty.

Leia a seguir trechos da entrevista do executivo ao 6 Minutos.

Houve um aumento expressivo no número de gestoras nos últimos anos. Ao que a Anbima atribui esse fenômeno? 

Diferentes fatores ajudaram a levar à situação atual. Alguns aconteceram há quatro ou cinco anos. O primeiro é o empreendedorismo, cada vez mais forte. Muitos profissionais trabalhavam em banco ou em uma gestora e enxergaram uma oportunidade para abrir o seu próprio negócio. É algo que se percebe não só na indústria de gestão de ativos.

Houve também dois movimentos regulatórios importantes por parte da CVM (a Comissão de Valores Mobiliários, autarquia que regula e fiscaliza o mercado de capitais). Uma delas permitiu mais investimento no exterior e trouxe mais tecnologia e redução de custos. Na sequência, outra mudança tratou da figura do gestor: exigiu mais qualificação, mas também permitiu que, além da gestão, ele pudesse distribuir o seu próprio fundo.

Outro movimento foi a disseminação das plataformas de distribuição de produtos, que começou com a XP, mas depois se espalhou. E o último fator, talvez o mais visível para as pessoas, foi a evolução das condições macroeconômicas, com maior estabilidade e a redução das taxas de juros, o que levou o investidor a sair do título público e a procura produtos diferenciados. E isso valoriza a expertise e a capacidade do gestor.

Ao longo do ano, surgiram casos de corretoras investigadas sob suspeita de fraudes e atos ilegais. Isso preocupa?

São casos isolados. Posso falar tanto pelo lado da indústria da gestão de ativos como de corretagem. Temos a preocupação em não manchar a imagem da indústria e é por isso que temos a autorregulação. Uma das razões para que sejam casos isolados é que é difícil entrar nessa indústria. Dizemos que a barra das exigências é alta e tem que ser assim: precisa ter diretor de compliance, CGA (Certificação de Gestores Anbima) e outros.

Há profissionais suficientes para atender ao aumento da demanda pelos novos investidores? 

Há uma procura grande e crescente pelas provas de certificação e pelos treinamentos que oferecemos, mas não sei se dá para dizer que existe uma carência. Se a pessoa é um gestor e participa da decisão de investimento, tem que estar preparado e capacitado. E a certificação, como a CGA, é fundamental.

Há muitos anos, fazemos o registro do gestor na Anbima. No fim de 2018, assinamos um convênio com a CVM para começar a fazer um registro único. Até então, o gestor tinha que fazer o registro lá e depois aqui. Fazemos o trabalho de diligência, verificamos se está capacitado, se possui estrutura para operar e daí a CVM dá o aval para entrar no mercado. Agiliza o processo e dá mais consistência ao processo de análise e de supervisão.

O quão sustentável é o atual momento da economia brasileira para dar suporte a este momento do mercado? 

O mercado de investimentos trabalha muito em cima de expectativas, do que entende que vai acontecer. Os números de crescimento da indústria de fundos, e são várias estatísticas, mostram que a expectativa é que haverá um bom período de crescimento e de estabilidade econômica. Não vou precisar se vai durar três ou cinco anos. Mas os números mostram que será mais sustentável do que soluços que tivemos nos últimos anos e décadas.

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