Polêmicas à parte, o mercado de cannabis veio para ficar. A planta, popularmente chamada de maconha, já teve uso comprovado em vários setores: na medicina, nos cosméticos e, no que mais suscita debates, o recreativo. A perspectiva de legalização da cannabis em novos mercados, especialmente para o uso medicinal, tem feito dessa indústria uma das mais promissoras — e as oportunidades de investimento já estão presentes.

O uso recreativo e medicinal da maconha é legalizado no Canadá e no Uruguai — nos Estados Unidos, 10 estados permitem ambos e outros 10 somente o medicinal.

Segundo dados da Euromonitor, as empresas ligadas à cannabis movimentaram US$ 12 bilhões (em torno de R$ 50 bilhões) em 2018. Em apenas seis anos, esse valor deve subir para US$ 166 bilhões (quase R$ 700 bilhões). Para se ter ideia da importância, isso equivale a 20% do faturamento da indústria de álcool. Estamos falando, claro, do faturamento de atividades legalizadas — o tráfico de drogas não entra na conta.

Enquanto a indústria da cannabis vai crescer 40% ao ano, a de bebidas alcoólicas e de tabaco vão quase andar de lado, avançando pouco mais de 1% anualmente. De olho nisso e no potencial de substituição do álcool e do tabaco pela cannabis, no uso recreativo, grandes companhias da chamada indústria do vício estão apostando em empresas ligadas ao cultivo da planta.

A Constellation Brands, dona da marca de cerveja Corona, tem 35% de participação na Canopy Growth, empresa canadense intitulada como a maior do mundo no setor de cannabis. Já a Altria, controladora da Marlboro, detém quase metade de outra grande empresa do setor, a Cronos Group.

Mas e aqui no Brasil? Por aqui, a cannabis está parcialmente liberada só para o uso medicinal — ainda assim, as famílias que desejam utilizar componentes da planta no tratamento médico têm de recorrer à Justiça para conseguir o direito de importação dos medicamentos.

Um projeto de lei que tramita no Congresso discute a regulamentação da venda de remédios e produtos que contenham extratos, substratos ou partes da planta Cannabis sativa. Surpreendentemente, tal projeto tem apoio de parte da bancada do agronegócio, que enxerga a planta como uma potencial futura commodity. O Brasil, segundo estudos preliminares, tem solo e clima bastante propício para o cultivo da cannabis.

Como posso investir nesse mercado crescente? Até pouco tempo atrás, a única forma de investir nesse setor era abrindo uma conta em uma corretora canadense ou americana e comprando ações de uma das poucas empresas de cannabis que são listadas nesses mercados.

A Vitreo, gestora de fundos, lançou no mês passado o primeiro produto de investimento em cannabis do Brasil: o Vitreo Canabidiol FIA IE. Mas já avisamos: por enquanto, somente investidores qualificados (que têm mais de R$ 1 milhão aplicados ou alguma certificação financeira, como CFP ou CFA) podem comprar cotas desse fundo.

“A indústria de cannabis deve crescer a taxas muito elevadas — podemos estar falando de centenas de bilhões de dólares em pouco tempo. Uma tendência forte dessa não pode ser ignorada pelo investidor”, diz Patrick O’Grady, sócio da Vitreo, ao 6 Minutos.  “Trazer isso como alternativa, ainda que seja só para os investidores qualificados, confere o nosso pioneirismo”.

Por causa de uma grande demanda inicial e para alcançar também o pequeno investidor, a gestora lançou outro fundo, o Vitreo Canabidiol Light. Aberto a todos os perfis de aplicadores, o fundo terá 20% aplicado no Vitreo Canabidiol FIA IE e 80% em títulos do Tesouro Direto. A ideia é surfar na valorização do fundo-pai.

Em ambos os fundos, o investimento mínimo é de R$ 5.000. A taxa de administração do fundo Canabidiol Light é de 0,056% ao ano, e a do Canabidiol FIA IE é de 1,5% ao ano + 20% de taxa de performance.

Mas no que aplica esse primeiro fundo de cannabis do Brasil? Trata-se de um fundo de investimento no exterior, como o nome sugere. O patrimônio do fundo é aplicado em ações e ETFs de empresas da indústria de cannabis listadas em bolsas dos Estados Unidos e Canadá.

“Essas empresas são participantes da cadeia de produção, mas as mais relevantes são sem dúvida as farmacêuticas, por estarem mais focadas no uso medicinal, que já avançou mais nesses países. Conforme o mercado for crescendo, o uso da planta vai se desdobrar em mais setores”, afirma O’Grady, da Vitreo.

Se a cannabis não é legalizada no Brasil, esse investimento é permitido? Sim. Para as entidades que regulam o mercado financeiro brasileiro, só importa que esses investimentos sejam feitos em empresas cuja atividade é permitida no seu mercado de atuação — no caso do Canadá e dos Estados Unidos, as ações e ETFs de empresas de cannabis só são listados em bolsa porque há legalização do uso.

“No ponto de vista da norma do Brasil, não faz diferença se estamos investindo em uma empresa medicinal de cannabis, em uma indústria farmacêutica tradicional, ou em qualquer outra empresa”, explica O’Grady.

Mas antes de considerar o investimento nesses fundos, é muito importante saber que os ativos ligados à indústria da cannabis são altamente voláteis — justamente pelas discussões de legalização ou proibição, e por ser um mercado ainda pequeno. Por exemplo: as ações da Canopy Group, negociadas na bolsa de Toronto, no Canadá, acumulam queda de quase 70% nos últimos 6 meses.

O cuidado é o mesmo exigido ao investir em bitcoin ou em qualquer produto altamente revolucionário e de alto risco: se não tiver estômago para as variações, melhor esperar o mercado se consolidar.

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