A gente sempre ouve histórias de empresários que começaram suas companhias com 13, 15 anos de idade. Mas são quase sempre narrativas que aconteceram há mais de 100 anos. A trajetória do carioca Luiz Quinderé, também conhecido como Luiz do Brownie, foge à regra. Ele começou seu negócio em 2005, quando tinha 15 anos e levava brownies de lanche para escola. “Os colegas sempre pediam um pedaço. Até que um dia saiu uma briga entre dois moleques por causa do bolinho de chocolate e me acendeu uma luzinha: no dia seguinte, levei mais e comecei a vender”.

Hoje, aos 30 anos, Quinderé já pode dizer que passou metade da vida fazendo brownies. E nesse tempo, fez a marca crescer: seu bolinho é distribuído em mais de 2.000 pontos de venda entre Rio de Janeiro, São Paulo e o Distrito Federal. Tem duas fábricas, quatro lojas próprias e emprega mais de 60 pessoas. Ele não revela o quanto fatura. Mas passou a barreira do R$ 1 milhão em 2013, quando produzia 20 mil unidades por mês. Hoje, ele produz 20 mil unidades em dois dias.

“Nos momentos de perrengue, e foram muitos, uma das coisas que me ajudaram muito foi ler sobre a história de outras empresas”, diz ele, que a seguir, lista os sete erros mais comuns dos pequenos empreendedores e dá dicas de como sair desses enroscos:

1 – “É mentira que empreender é não ter patrão”

Se você está começando um negócio porque não quer ter mais patrão, já está começando errado, segundo Quinderé. “O empreendedor tem dezenas de patrões: o governo federal, o governo municipal, o estadual. Para todos eles você tem que prestar contas. Tem os funcionários, os clientes – todos te demandam atenção e muito trabalho.

2 – “Também não é verdade que você vai trabalhar menos”

Muita gente acha que empresário trabalha pouco e anda de iate. Eu fui parar no hospital de tanto trabalhar. Isso ninguém sabe: todo mundo pensa que eu passo o tempo todo nas Bahamas, curtindo. Cheguei a trabalhar tanto que tive um piripaque, peguei meningite e quase morri. Fiquei muito tempo internado. E foi num momento em que a empresa estava devendo dinheiro e em que descobri que um funcionário estava me roubando. Aí entra a terceira dica:

3 – “Não concentre tudo em você”

Mesmo que você não tenha sócios, um empreendedor precisa ter alguém em que possa confiar e delegar funções. “A gente fica envolvido na rotina dos negócios: faz compras, vende, faz a limpeza, admite gente, demite gente e fica sem tempo de ver a empresa como um todo, descuida do planejamento, de analisar as finanças, de pensar na estrutura como um todo.” Por isso, segundo Quinderé, o empreendedor precisa ter um braço direito que assuma essas tarefas “mais mecânicas” do dia a dia. “Foi graças a meus sócios, que assumiram a empresa enquanto eu estava hospitalizado, que consegui me recuperar e voltar de uma maneira mais diferente, cuidando do planejamento. Uma das sócias de Quinderé é Vania Filgueiras, que era empregada da mãe de Luiz. Era ela que fazia os brownies que ele levava para a escola.

E como foi a história do roubo?

“Quando descobri que um de nossos colaboradores estava nos roubando, tive uma das piores sensações da minha vida: você se sente com raiva, bobo e ao mesmo tempo traído.” Isso, segundo ele, só aconteceu porque ele não estava dando atenção suficiente às contas. O que leva ao quarto erro:

4 – “Perder controle das contas”

No ano passado, a inadimplência das empresas bateu recordes, segundo a Serasa.

Mais de 6,1 milhões de companhias, de pequenas a grandes, terminaram 2019 com contas em atraso. O número é 9,5% maior que o de 2018 e, conforme a Serasa, cada empresa tinha, em média, 9 dívidas vencidas e não pagas. E nem são os bancos os maiores credores: 78% devem para instituições fora do setor financeiro (fornecedores, por exemplo). “Quando a gente fica muito envolvido com as coisas do dia a dia, principalmente com as vendas, se esquece de controlar as contas. E isso é uma das coisas mais importantes na vida de um empreendedor. Não ser megalomaníaco é outra coisa fundamental.”

5 – “Sonhar alto demais”

“Vejo gente que nem abriu o negócio ainda e que já está planejando ter cinco, dez, 100 lojas. Não entendo essa megalomania”, diz Luiz do Brownie. O importante, segundo ele, é dar um passo de cada vez e planejar cada um desses passos: vou ter quanto de dinheiro para fazer isso? No pior cenário, quanto tempo eu aguento com meu próprio capital? Tudo isso tem que estar no planejamento da empresa. “Outra dica é testar tudo, várias vezes, antes de lançar. As startups fazem isso e é genial”, afirma ele. Assim, você consegue corrigir erros antes que eles se tornem prejuízo.

6 – “Ir na onda”

“Não compreendo esses empreendedores que entram na onda das barbearias, das paletas mexicanas, das cervejarias – ou seja – desses negócios que viram moda. Se há 300 pessoas entrando num mesmo ramo, as chances da sua empresa dar certo nesse mesmo segmento diminuem para caramba. Mesmo sem entrar nessas furadas, já é difícil”, diz Luiz, lembrando um dado do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas): de cada quatro empresas abertas, uma fecha antes de completar dois anos de existência.

7 – “Achar que se legalizar é fácil”

Um dos momentos mais difíceis da Brownie do Luiz foi a formalização. “Fiquei seis anos, desde que comecei a vender no recreio da escola, na informalidade. A gente fazia os brownies em casa e eu entregava até de skate. Mas chega uma hora que não dá mais. Você precisa se formalizar, dar nota fiscal.”

O que Luiz não sabia é que ia ser tão complicado manter a empresa em ordem. “Era muita falta de informação sobre os processos, sobre a burocracia dos impostos, dos pagamentos. A coisa mais fácil é se enrolar nesse momento de formalização.” Isso não quer dizer, porém, que se deve evitar a formalidade. “Formalizei a empresa em 2010 e em 2011 foi lançado o sistema de Micro Empreendedor Individual (MEI), que facilita muita coisa, é bem mais simples. E naquela época, o Sebrae não era tão focado em empreendedores como é agora. E há muito curso grátis e informações na internet que ajudam muito nessa etapa. O segredo é estudar antes.”

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