Escolas vão ter que ensinar educação financeira para os alunos dos ensinos infantil e fundamental a partir deste ano. Esse tipo de conteúdo não vai entrar como uma nova disciplina da grade curricular. De acordo com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), a educação financeira entra como disciplina transversal, ou seja, vai ser ensinada junto com outras matérias, como português, história, geografia e matemática.

Dependendo da idade, o que se espera é que as crianças aprendam o que é banco, como poupar, planejar compras e, inclusive a lidar com a questão do crédito.

O tema é tão importante que o Banco Central começa a testar neste ano um projeto piloto em seis Estados e Distrito Federal para levar educação financeira para 25 mil alunos de 1.100 escolas públicas do país.

Por que ensinar educação financeira tão cedo? Tudo na vida é uma questão de hábito, e quanto mais cedo esse hábito é aprendido, mais fácil fica mantê-lo na vida adulta. O objetivo é mudar o cenário atual, em que cerca de 40% da população brasileira está com o nome sujo, plantando desde cedo  a semente de como lidar com o dinheiro de forma controlada e sustentável. “Educação financeira é um processo, leva tempo e depende de repetição. É mais fácil criar esse hábito do zero do que transformar um hábito que já se possui”, diz Paula Ono, gerente do projeto de educação financeira Aprender Valor, do Banco Central.

Para massificar esse conhecimento, é mais fácil que ele seja transmitido nas escolas. “Precisamos formar uma nação financeiramente educada, e a escola é o principal local para ensinar isso”, diz Claudia Forte, superintendente da AEF (Associação de Educação Financeira do Brasil).

Esse tipo de ensino também considera aspectos sócio-emocionais. “Quanto mais cedo se aprende, maior a chance dessa pessoa chegar à vida adulta preparada para lidar com questões como desemprego, endividamento”, afirma o professor Sandro Yoshio Kuriyama, docente do curso avançado de matemática do Colégio Marista Arquidiocesano.

Mas educação financeira não deveria ser ensinada em casa? Deveria, mas não é isso que acontece na prática. O tema dinheiro costuma ser tabu até entre adultos, por isso a discussão não chega às crianças. “Viemos de várias gerações em que não se fala em família sobre dinheiro, orçamento para as férias, conta atrasada e desemprego. Hoje, existem jovens do ensino médio que já estão com o nome sujo, pois são convidados a consumir a todo momento. O pulo do gato não é deixar de consumir, mas decidir a forma correta de fazer isso”, diz Claudia.

As famílias também vão ganhar com a educação financeira? A expectativa é que sim, pois as crianças funcionam como multiplicadores de conhecimento junto aos pais. “Está comprovado que as crianças levam o que aprendem na escola para dentro de casa. Descobrimos que algumas passam até a ensinar os pais a lidarem com o planejamento financeiro”, diz o professor Sandro Yoshio Kuriyama, do Colégio Marista Arquidiocesano.

Que outros ganhos essa disciplina pode trazer? No longo prazo, o objetivo é que o país todo ganhe com esse aprendizado financeiro. “As evidências mostram que um com maior nível educacional tende a poupar mais”, diz João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto.

“No futuro, esperamos um cenário com mais poupança, em que o crédito seja usado de forma mais consciente e produtivo. Quando conversamos com as pessoas nas ruas, elas relatam que nunca aprenderam sobre educação financeira em lugar nenhum”, diz Paula Ono.

Por que a educação financeira vai ser ensinada de forma transversal? Porque é mais interessante, gera maior engajamento dos alunos e traz impacto para suas famílias. “Faz mais sentido para os alunos que esses conceitos entrarem junto com outras disciplinas, pois é um tema que vai além dos juros simples e compostos. Gera um senso de pertencimento, diz Claudia Forte, superintendente da AEF-Brasil.

O mais óbvio não seria incluir esse tema com a matemática? Não é bem assim que a coisa funciona. Claudia diz que a população já tem uma aversão natural à matemática. “Como disciplina transversal, a tendência é que o assunto seja abordado por meio de projetos, o que é mais prazeroso para os estudantes.”

Como a educação financeira pode ser abordada com crianças? Ninguém precisa chegar na sala de aula falando sobre inadimplência e juros do cheque especial. Para começar, segundo Guilherme Prado, da ONG Gaste Bem, educação financeira, dá para fazer isso de uma forma mais leve. “Dá para usar chocolates, criar uma lojinha e ensinar às crianças o valor do dinheiro. Ou criar um banco e deixar uma delas responsável pela instituição. Tem várias formas de fazer isso”, afirma Prado, que leva educação financeira para crianças de comunidades carentes.

A abordagem pode ser diferente, dependendo de cada escola. ”No Archidiocesano, ensinamos educação financeira por meio de projetos, que são apresentados depois em uma mostra cultural”, diz Sandro.

O que o BC está fazendo para impulsionar a educação financeira nas escolas? O Banco Central começa neste ano um projeto piloto de educação financeira nas escolas públicas. É o programa Aprender Valor, que deve ser implantado no Ceará, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná e São Paulo). O objetivo é expandir o projeto para todo o país a partir de 2021.

Segundo Paula, os acordos são feitos com as secretarias estaduais de ensino, que costumam ser responsáveis pelo ensino fundamental 2 (5º ao 9º ano). As secretarias municipais, que cuidam do fundamental 1 (1º ao 4º ano) também serão buscadas. Os recursos que financiam o projeto vêm do fundo de defesa dos direitos difusos, do Ministério da Justiça – esse fundo costuma ser formado com o dinheiro das multas aplicadas pelos Procons estaduais.

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu WhatsApp? É só entrar no grupo pelo link: https://6minutos.com.br/whatsapp.