A cena você já conhece. Você acabou de comprar um eletrônico ou um eletrodoméstico na loja e o vendedor — ou o site — te oferece a contratação da garantia estendida. Em vez da garantia do fabricante, de 90 dias, você pode ficar protegido, por exemplo, por seis meses ou um ano se precisar consertar o equipamento.

Para as redes varejistas, a garantia estendida se tornou um grande negócio, com impacto positivo no resultado financeiro das companhias. Hoje, quase todas oferecem o serviço para os seus consumidores. Só para dar uma dimensão de valor, o Magazine Luiza faturou R$ 39,1 milhões somente com os juros das vendas de garantia estendida sobre produtos comercializados entre janeiro e setembro deste ano.

Mas, para o consumidor, será que vale a pena contratar esse seguro? O 6 Minutos foi atrás de especialistas e números para tentar te ajudar a responder essa pergunta.

Quais as regras da garantia legal e da garantia estendida? A garantia legal, que é obrigação do fabricante do produto, é válida por 90 dias. A garantia estendida, que é um seguro, é vendida pelo fornecedor, em geral o varejista ou uma empresa de seguros contratada por ele, e estende a vigência dessa garantia legal.

Quanto o varejo e seguradoras arrecadam com a garantia estendida? E quantas pessoas efetivamente conseguem ter seus produtos consertados ou trocados? Entre janeiro e setembro deste ano, o faturamento total com a cobrança desse tipo de seguro foi de R$ 2,3 bilhões, segundo dados da Susep (Superintendência de Seguros Privados), órgão federal que regula o setor.

Já as despesas das seguradoras para atender consumidores que tiveram problemas com seus aparelhos eletrônicos e outros produtos cobertos pela garantia somaram R$ 260,6 milhões.

Ou seja, as despesas equivaleram a apenas 12,5% do total. Essa “taxa de sinistralidade”, como é chamada, está bem abaixo da média do mercado de seguros patrimoniais, que é superior a 35%.

Por que os gastos das redes varejistas e das seguradoras com a garantia adicional são baixos? Há duas razões principais. Em primeiro lugar, a evolução cada vez maior da tecnologia faz com que os produtos fiquem defasados mais rapidamente.

Todos os anos, fabricantes lançam versões atualizadas de aparelhos eletrônicos, e muitas vezes os produtos são trocados pelo consumidor antes que eventuais problemas exijam o acionamento do seguro. A Samsung, por exemplo, estima que o brasileiro troca de celular a cada um ano e um mês, em média.

Mas não é só isso. Patrícia Dias, supervisora do Procon-SP, diz que os consumidores enfrentam dificuldades e burocracia para conseguir exercer seu direito à reparação.

“A sinistralidade é baixa porque o consumidor não consegue exercer e acaba desistindo por causa da dificuldade”, afirma. “Há uma série de condições para exercer a garantia, como o local para a realização da assistência técnica; dependendo do tipo de garantia, a troca não está na cobertura, só o conserto.”

Essas dificuldades se traduzem em um alto número de consumidores insatisfeitos. O site Reclame Aqui soma cerca de 7.000 reclamações relacionadas à garantia estendida.

O que os especialistas dizem? Vale a pena contratar? Depende muito do caso. A primeira recomendação é que você tenha em mente por quanto tempo irá usar o produto. A segunda é que você leia atentamente o tipo de cobertura oferecida: por quanto tempo, quais as condições para exercer seu direito, se prevê troca do aparelho e se há um valor máximo para trocar.

“O consumidor precisa fazer a conta do valor do produto que está adquirindo e o prazo pelo qual pretende usufruir do produto”, aconselha Rodrigo Nholla, advogado do departamento de relações de consumo do BNZ Advogados. “É igual seguro de carros, você pode escolher o completo, que cobre inclusive eventuais sinistros caso outra pessoa esteja dirigindo o seu carro.”

Ele ressalta ainda que nenhum seguro cobre o mau uso do produto.

Para Patrícia, do Procon, a forma como a garantia é vendida é o grande problema. “Há muitos casos em que o consumidor não é informado sobre o que aquela garantia realmente cobre. Em alguns casos, os varejistas dão desconto no produto se o cliente contratar a garantia, o que é um absurdo”, afirma.

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