O ano que começa promete marcar a retomada das ofertas iniciais de ações no mercado brasileiro. Ao menos é o que projetam bancos e analistas a partir de conversas com empresas interessadas em abrir o capital. Duas empresas, a incorporadora Mitre e a Locaweb, de tecnologia, já ingressaram com seus pedidos na CVM (Comissão de Valores Mobiliários, a autarquia do governo que regula e fiscaliza o mercado de capitais).

Antes de estudar as prováveis novatas na bolsa, é oportuno se perguntar: as companhias que estrearam em 2019 se provaram — até o momento — um bom investimento? Como as ações se comportaram?

Os famosos IPOs (sigla em inglês para Oferta Pública Inicial) não foram tão volumosos quanto o esperado: no início de 2019, falava-se em mais de uma dúzia de empresas que abririam o capital na bolsa de valores brasileira, mas apenas 5 concluíram o rito. São elas: Centauro, Neoenergia, Vivara, Banco BMG e C&A.

E o que aconteceu com essas empresas? 6 Minutos analisou o desempenho dessas empresas para saber se os investidores que compraram papéis no IPO colheram bons frutos. Veja abaixo:

EmpresaData do IPOValor da ação na abertura de capitalAção em 22/01Desempenho desde o IPO
Centauro15/04/2019R$ 12,50R$ 41+228%
Neoenergia07/06/2019R$ 15,65R$ 25,68+64,1%
Vivara08/10/2019R$ 24,00R$ 30,75+28,1%
Banco BMG24/10/2019R$ 11,60R$ 10,18-12,2%
C&A24/10/2019R$ 16,50R$ 17,09+3,6%

O analista Luís Sales, da corretora Guide Investimentos, avaliou os principais acontecimentos que mexeram com as cotações das ações dessas 5 empresas desde que elas estrearam na B3.

Centauro

Quem vê o sucesso da Centauro nos dias de hoje pode não imaginar que o seu IPO quase não saiu do papel por falta de demanda. Em paralelo ao processo de abertura de capital, a Centauro estava na disputa pela Netshoes, que acabou sendo comprada pelo Magazine Luiza, em julho. E errou feio quem apostou que o controle exercido pela gigante do varejo brasileiro sobre a principal concorrente da Centauro derrubaria as suas ações.

“O próprio interesse do Magalu pela Netshoes mostrou que o segmento esportivo está em alta, e a Centauro está bem posicionada no setor. A marca é forte, as vendas do site e das lojas físicas estão crescendo, e eles têm uma boa estratégia de integração do on-line com o mundo físico, assim como o Magazine Luiza”, diz Luis Sales, da Guide.

Nessa estratégia de integração, a Centauro fez uma parceria com a Americanas.com para ofertar seus produtos no marketplace da varejista. Além disso, a rede de artigos esportivos tem investido em soluções como a do “clique e retire” (em que o consumidor compra pela internet e retira o produto na loja física), que já representa mais de 20% das vendas feitas pelos canais digitais.

Os bons resultados, as estratégias acertadas e a perspectiva de crescimento do consumo estão dando um empurrão extra para as ações da Centauro, que, de acordo com a visão da Guide, devem continuar a apresentar um bom desempenho em 2020. “Essa ação é uma das nossas recomendadas para o ano”, explica Sales.

Neoenergia

O setor de energia é daqueles que, mesmo que não haja grandes novidades, atraem o interesse dos investidores. Isso se deve à estabilidade e à previsibilidade de resultados — os dividendos são um extra. Nesse cenário, a Neoenergia se destacou por ser a única do setor a se lançar no mercado. “Além disso, a empresa é gerida por um grupo espanhol que tem experiência em projetos importantes no exterior”, comenta Sales, analista da Guide.

Em um segmento com muitas estatais — leia-se sujeitas a ingerência política –, a Neoenergia destaca-se pela gestão profissional. Além disso, ela arrematou importantes projetos de transmissão em leilões recentes feitos pelo governo, e deve expandir seus negócios nos próximos anos. Ou seja: as ações tendem a continuar avançando.

Vivara

A Vivara surpreendeu no IPO, por causa da grande demanda por seus papéis. Tanto que o preço da ação foi fixado próximo do valor máximo estabelecido. Passados alguns meses, o desempenho positivo permanece. “Embora esteja em um setor muito sensível às crises, a Vivara passou pela tormenta sem perder receitas e mantendo suas margens”, afirma Luis Sales, da Guide.

A lógica aqui é a seguinte: se a Vivara foi bem, mesmo com a economia titubeando, agora com a perspectiva de crescimento da renda e do consumo a rede de joias deve brilhar ainda mais — com o perdão do trocadilho. Outro fator que contribui para essa visão positiva é que parte dos recursos do IPO será usada para abrir novas lojas e reforçar a posição da rede no comércio.

Banco BMG

O Banco BMG é o patinho feio dessa história — ele foi o único a perder valor desde o IPO. As razões são várias: desde problemas internos até fatores de mercado. “Ouvimos que durante o IPO, os fundos acabaram sendo parcialmente atendidos, e ficaram com uma participação bem pequena”, conta Sales. Por acreditar que uma posição menor não valeria a pena, muitos gestores decidiram se desfazer das ações. Resultado: os papéis do BMG chegaram a despencar 28%, no pior momento.

Para piorar, no balanço do terceiro trimestre mostrou que estão crescendo as provisões do banco para custear eventuais perdas com processos judiciais — inclusive os movidos por clientes que eventualmente se sentiram lesados pelas condições dos empréstimos consignados. Passados esses ruídos, as ações voltaram a subir, mas não chegaram ainda sequer ao patamar firmado no IPO.

“Há um bom contexto para os bancos menores. O BMG tem forte atuação em consignado, que é um segmento com alto potencial de crescimento, por causa da queda do desemprego e da redução do endividamento das classes C e D”, aponta Sales, da corretora Guide. Ele lembra que esse tipo de empréstimo tem garantias altas, baixa inadimplência, e grande adesão entre os brasileiros.

C&A

A C&A abriu capital na bolsa brasileira no mesmo dia do BMG e, ao contrário do banco, registrou valorização dos papéis. Não dá pra dizer que foi um desempenho espetacular, mas está no campo positivo. Parte do comportamento reticente do mercado vem do fato de a varejista holandesa ter falado muito pouco de seus números e planos — mesmo depois da abertura de capital.

“No balanço divulgado após o IPO, ela não divulgou informações que as concorrentes como a Renner e a Guararapes divulgam. Os gestores fizeram uma teleconferência bem breve e não deram mais informações sobre estratégia da empresa. Não era esse tipo de atitude que o investidor esperava”, diz Sales, da Guide.

Embora tenha fechado lojas e tenha visto a receita ficar estagnada, a C&A, assim como a Centauro e a Vivara, deve ser beneficiada pela recuperação do consumo. “Por esse cenário macro, até acreditamos que as ações devem se valorizar em 2020. Mas a gestão precisa apresentar alguns resultados mais positivos, antes de começarmos a recomendar a compra”, pondera Luis, da Guide.

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