Demorou quase uma década para Michael Klein comprar de volta os negócios da família. Agora, o empresário quer usar o boom das fintechs para ajudar na retomada.

O bilionário tem como objetivo transformar informações de mais de 30 milhões de clientes da varejista de eletroeletrônicos Via Varejo em um banco de dados para o BanQi, uma empresa de tecnologia financeira para clientes que não têm acesso a bancos tradicionais. A maioria deles não possui conta bancária ou histórico de crédito.

A iniciativa da fintech ecoa a abordagem de crédito adotada pelo pai, que fundou há mais de 50 anos a varejista que se tornaria a Via Varejo. Samuel Klein, um imigrante judeu polonês, sobreviveu a dois campos de concentração antes de se mudar para o Brasil na década de 1950. Sua biografia menciona como seus filhos aprenderam a ler colocando em ordem alfabética os cartões com as informações pessoais dos clientes, incluindo o que compraram, quanto pagaram e o que ainda deviam. Klein, o pai, acumulou bilhões para a família no ramo do varejo. Ele faleceu em 2014. Agora, um dos filhos que organizou os arquivos está de volta ao comando.

“Alguns clientes ainda compram com cheques-salário e nós damos o troco para eles em dinheiro”, disse Michael Klein, 68 anos. “Esse tipo de relacionamento e essa maneira de dar crédito são algo único que queremos resgatar.”

30% sem conta em banco

Cerca de 30% dos adultos no Brasil não tinham contas bancárias em 2017, segundo o Banco Mundial. Desde então, fintechs como o Nubank, o Banco Inter, este com investimentos do SoftBank, e o C6 Bank floresceram na maior economia da América Latina, tentando atrair tais clientes com menos burocracia e menores tarifas.

A vantagem do BanQi é que a fintech já possui os dados de muitas dessas pessoas, disse Klein. A rede de lojas de departamento Casas Bahia tornou-se conhecida entre os brasileiros de baixa renda com a venda de geladeiras, TVs e outros bens duráveis e caros no chamado “crediário”, com carnês e pagamentos em parcelas mensais.

Os clientes precisavam visitar as lojas todos os meses para pagar os boletos, e essa é outra vantagem do BanQi, disse Klein: a rede de 1.066 lojas das Casas Bahia e do Ponto Frio, operadas pela Via Varejo, também pode funcionar como agências bancárias informais. Os cartões de débito pré-pagos também são uma opção para ajudar os clientes a entrar em uma economia mais formal sem uma conta bancária tradicional. Klein disse que espera que os dados em papel entrem no banco de dados digital do BanQi em cerca de seis meses.

Loja das Casas Bahia, da holding Via Varejo (VVAR3)

Loja das Casas Bahia, rede erguida por Samuel Klein e que agora pertence à Via Varejo, tocada por seu filho Michael

“Os tempos mudaram”

Klein reuniu um grupo de investidores em junho para recomprar em leilão uma participação de 36% na Via Varejo que pertencia ao GPA (Grupo Pão de Açúcar), controlado pelo francês Casino Guichard-Perrachon. O valor da operação foi de R$ 2,3 bilhões. A família Klein havia vendido a varejista em 2010, alguns anos antes da morte de Samuel.

As ações da Via Varejo acumulam alta de 58% desde o leilão de 14 de junho, superando o ganho de 7,4% do índice Ibovespa. A aposta de investidores é que a Via Varejo será capaz de dar uma guinada nos negócios à semelhança da que foi feita pelo Magazine Luiza, que passou de patinho feio a uma das campeãs em valorização na B3.

“Com todo o respeito, os ex-controladores são bons com supermercados, mas não com eletrodomésticos“, disse Klein a jornalistas em São Paulo na quarta-feira, 90 dias após indicar a nova gerência do negócio. “Queremos resgatar a imagem, a história das Casas Bahia e do Ponto Frio. Mas é claro que faremos isso com tecnologia, porque os tempos mudaram.”

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