A contaminação de lotes da cerveja Belorizontina, produzida pela cervejaria artesanal Backer, foi um dos assuntos mais falados dos últimos dias. Onze pessoas apresentaram sintomas de uma síndrome nefroneural após consumir o produto, e uma delas morreu na última terça-feira (7). Na semana passada, o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) interditou a operação da Cervejaria Backer.

O que causou essa doença misteriosa? A causa provável dessa intoxicação é a ingestão de dietilenoglicol ou de monoetilenoglicol, substâncias que foram encontradas em garrafas da Belorizontina. Essas substâncias são tóxicas, e não devem ter contato com a cerveja — elas são usadas no processo de refrigeração da bebida, para evitar o congelamento do líquido. No caso da Backer, não ficou claro ainda se essas substâncias contaminaram o produto acidentalmente, ou se houve algum tipo de sabotagem.

O que deve acontecer agora? Hoje, o ministério determinou que todas as cervejas da Backer sejam recolhidas dos supermercados e estabelecimentos. Não foram reportados novos casos, mas as investigações da Polícia Civil de Minas Gerais continuam.

6 Minutos conversou com Carlo Lapolli, presidente da Abracerva (Associação Brasileira de Cerveja Artesanal), para entender como é o processo de fiscalização das unidades que produzem cerveja artesanal, e para saber se a associação vê algum impacto na confiança do consumidor no produto. Veja os principais trechos da entrevista:

O caso da Backer pode gerar desconfiança com as marcas de cerveja artesanal?

Estamos avaliando o impacto, mas é evidente que existe uma fobia temporária. O caso é inédito no Brasil e no mundo — não há notícia de contaminação de cerveja com substâncias desse tipo. Já vimos casos parecidos com outras bebidas, como o leite e a cachaça, e até com alimentos.

O consumo deve ser prejudicado?

Esse receio de consumir a cerveja artesanal deve ser temporário, assim como acontece com o leite, quando há casos de contaminação por substâncias tóxicas. Quando origem do problema for esclarecida, o consumo deve voltar ao normal. Nós lamentamos a morte de uma pessoa, nesse episódio da Backer, e queremos evitar a repetição de qualquer erro que eventualmente tenha acontecido.

Como é o processo de produção de uma cervejaria artesanal?

Qualquer cervejaria artesanal precisa ter registro no Ministério da Agricultura para operar. Antes de abrir a fábrica, o ministério manda um fiscal para ver as instalações, verificar os processos e checar se o manual de boas práticas de fabricação está sendo atendido — e tudo isso fica registrado no sistema do ministério. As mesmas normas e instruções que são aplicadas para uma cervejaria artesanal são aplicadas em uma fábrica da Ambev, por exemplo.

O processo fiscalizatório, feito pelo Ministério da Agricultura, também é o mesmo, e temos as mesmas condições de rastreabilidade dos produtos. Toda cerveja artesanal tem no rótulo o número da fábrica, os dados do lote e as informações de fiscalização — é uma norma internacional. É importante dizer que a produção é muito segura, e que a cerveja artesanal brasileira é respeitada e aceita no mundo todo por isso.

O que pode ter acontecido no caso da Backer?

O processo de usar substâncias anticongelantes é comum em todas a fábricas, grandes ou pequenas. Em outros países, como na Alemanha e nos Estados Unidos, esse mesmo rito é seguido. Mas é muito raro o uso do dietilenoglicol ou do monoetilenoglicol para esse processo, por causa do custo — são substâncias mais caras. Em geral, é usado o etanol (álcool de cana), misturado à água.

Existe alguma medida que pode ser tomada para evitar que essa contaminação ocorra novamente?

Estamos pedindo ao Ministério da Agricultura e à Anvisa a edição de uma norma que proíba, cautelarmente, o uso do dietilenoglicol e do monoetilenoglicol. Enquanto isso, a Abracerva recomendou às cervejarias artesanais a revisão dos processos de fabricação e o uso exclusivo de produtos não-tóxicos na refrigeração. Além disso, estamos orientando que os colaboradores sejam treinados, para que riscos assim sejam mitigados, e para não termos um problema maior no futuro. Queremos dar transparência aos nossos processos, abrir nossas fábricas para os consumidores.

Uma pesquisa recente mostrou que as vendas de cervejas puro malte, como a Heineken, estão se aproximando das marcas mais disseminadas, como a Skol. Isso é um risco para as cervejarias artesanais?

Hoje, as pessoas se permitem experimentar novas marcas e sabores. Alguns anos atrás, cerveja era como torcida de futebol: você tinha uma marca e não mudava. A Heineken tinha uma operação pequena no Brasil e se aproveitou dessa mudança de hábito para crescer.

Mas há um interesse crescente por produtos artesanais: queijo, embutidos e a cerveja. Nesse sentido, nós fomos pioneiros, e vamos continuar crescendo. A própria cerveja artesanal tem despertado nos consumidores a vontade de experimentar novos sabores, embora a gente sempre fale que o nosso público é muito fiel.

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