Muitos usuários se surpreenderam com a decisão da Grow (junção dos patinetes Grin com as bikes Yellow) de deixar de alugar patinetes em 14 cidades e suspender a operação de bikes em todo o país. Mas quem acompanha de perto o mercado de micromobilidade já suspeitava que algo ia não ia bem no negócio de aluguel desses equipamentos.

O 6 Minutos falou com alguns especialistas no assunto para entender o que está acontecendo com esse setor e quais foram os erros da Grow. Veja algumas constatações:

Passo maior que a perna

A expansão da operação da Grin ocorreu muito mais rapidamente que das outras empresas do setor. Em vez de se concentrar em um pequeno número de cidades para avaliar melhor a operação, ela foi logo entrando em 17 mercados, todas com realidades muito diferentes umas das outras.

Sem dar conta de manter o mesmo de nível de serviço em locais tão diversos, a empresa anunciou ontem a saída das cidades de Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Campinas (SP), Florianópolis (SC), Goiânia (GO), Guarapari (ES), Porto Alegre (RS), Santos (SP), São Vicente (SP), São José dos Campos (SP), São José (SC), Torres (RS), Vitória (ES) e Vila Velha (ES).

O que disse a empresa sobre isso? “O Brasil é um país muito maior que os demais e fez uma expansão acelerada, por isso, depois de um balanço da operação em 2019, percebemos que seria preciso uma reestruturação. Essa não foi uma decisão fácil, mas era necessária para que a companhia siga prestando seus serviços de forma estável, eficiente e segura para os usuários.”

Custo elevado da importação dos equipamentos

Hoje, os patinetes da Grin são importados já montados da China, o que eleva seu custo tributário em 110%. A empresa chegou a anunciar planos de montar as patinetes na Zona Franca de Manaus (AM), mas não deu prosseguimento à ação.

Segundo Ricardo Ducco, diretor de marketing da Drop, primeira montadora de patinetes elétricas do país, o custo do produto cai de 30% a 40% se ele for montado no Brasil. Por isso, a aposta da Drop de montar uma fábrica na Zona Franca de Manaus.

“Os patinetes montados da China chegam ao Brasil custando cerca de R$ 5.000, cada um, para essas empresas de aplicativos. É um custo elevadíssimo para um equipamento que se deprecia rapidamente e para uma operação de grande escala. A conta não fecha”, diz Ducco.

Modelo errado de patinete para uso intenso

Especialistas do setor dizem que as empresas de aplicativos de aluguel de patinetes escolheram trazer para o Brasil o mesmo modelo que é usado pelos consumidores, o que foi um erro. É que o uso nos apps de aluguel é muito mais intenso, o que acelera o processo de desgaste e necessidade de reposição.

Pelas contas de Ducco, esses modelos acabam se depreciando em 2 ou 3 meses no máximo. “Foi um erro por no app o mesmo modelo vendido na loja para o consumidor. Não era o produto mais adequado e resistente para esse tipo de uso. Algumas, como a Lime, perceberam e começaram a pensar em modelos mais robustos. Mas aí ela decidiu sair do país”, afirma Ducco.

Furto e vandalismo

Desde o início da operação foram relatados casos de furtos e vandalismo envolvendo as bikes e patinetes. As empresas sempre disseram que esse tipo de perda já estava previsto e que não pesava tanto no custo total.

A questão é que não foram apenas usuários do serviço que se envolveram com esse tipo de ocorrência. Uma auditoria interna da Grow identificou um possível esquema de furto envolvendo funcionários e prestadores de serviços.

O que diz a Grow? “A empresa informa que a 50ª DP, do Itaim Paulista, instaurou inquérito para investigar a suspeita de furto de patinetes em São Paulo. Esse inquérito corre em sigilo e foi aberto com base em informações colhidas pela empresa em sindicância interna e repassadas às autoridades policiais.”

O dinheiro que não chegou

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a empresa tinha a expectativa de receber uma nova rodada de aportes, o que não ocorreu. A Grow negociava investimentos de US$ 150 milhões com o grupo japonês SoftBank. A questão é que o SoftBank não só fechou as torneiras como está cobrando retorno financeiro das empresas em que investiu.

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