Um dos maiores fornecedores de carne bovina do mundo está planejando adotar rastreabilidade total de gado em partes da Amazônia –e está tentando convencer o governo a fazer o mesmo.

A Marfrig, segundo maior produtor global de carne bovina, iniciará um projeto de cinco anos para construir um sistema de rastreamento de gado em áreas críticas da Amazônia, de acordo com o fundador e presidente do conselho de administração da empresa, Marcos Molina. Para ele, é possível fazer o mesmo em todo o país.

Como a Marfrig já assegura não comprar gado diretamente de fazendas localizadas em áreas críticas da Amazônia, a iniciativa tem como objetivo eliminar o principal obstáculo para deter o desmatamento vinculado à pecuária: os fornecedores indiretos, ou seja, aqueles que vendem animais às fazendas que comercializam o gado diretamente com os frigoríficos.

Na última década, as principais empresas brasileiras de carne bovina investiram muito tempo e dinheiro para mostrar que não fazem compras diretas de gado criado em áreas desmatadas. Mas os frigoríficos não podem garantir que não compram indiretamente de nenhuma fazenda envolvida no desmatamento.

“Um dos setores mais afetados pela imagem do Brasil (na questão ambiental) é a pecuária. Mas essa questão é a que está mais fácil de acertar”, disse Molina em entrevista por telefone na última sexta-feira, ecoando as observações feitas ao vice-presidente Hamilton Mourão em reunião na mesma data.

O governo tem as ferramentas necessárias para rastrear todo o rebanho bovino no Brasil, estimado em mais de 200 milhões de cabeças, disse Molina. Porém, são necessárias ações, como a inclusão de um tópico ambiental na documentação de trânsito de animais, as chamadas GTAs, e a exigência para que todo boi passe a ser rastreado a partir de determinada data.

Tais iniciativas podem reduzir as taxas de desmatamento, melhorando a reputação do Brasil no exterior e ajudando o país a ter acesso a novos mercados, disse Molina. Ele deu o exemplo do Uruguai, que, com seu sistema completo de rastreamento, tem acesso a 12 mercados a mais que o Brasil. A Marfrig exporta carne bovina do Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e EUA –este último por meio de sua subisiária National Beef.

“A Marfrig está fazendo um plano de cinco anos”, disse Molina. “Mas, se o governo e a iniciativa privada se unirem, conseguimos fazer mais rápido.”

Reunião com Mourão

Molina disse que Mourão, que preside o Conselho da Amazônia, se mostrou aberto a suas sugestões, acrescentando que o governo federal está alinhado às preocupações das empresas brasileiras sobre a importância do combate ao desmatamento.

Executivos de outras empresas, incluindo Cargill e Suzano, participaram da reunião com Mourão e enviaram uma carta ao governo na semana passada informando que as percepções negativas do Brasil no exterior nas questões ambientais são potencialmente prejudiciais às perspectivas de negócios. Molina foi o único representante do setor de carnes a assinar a carta.

Cerca de 40% do gado abatido pela Marfrig no Brasil é fornecido por pecuaristas que criam animais do nascimento ao abate, o que anula o problema dos fornecedores indiretos.

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