Um dos setores mais afetados pela pandemia do coronavírus, a indústria hoteleira viu a taxa de ocupação de hotéis cair mais de 80% desde 15 de março, quando começou o movimento de fechamento da economia no país. “Foi uma queda de demanda brutal. Para o turismo, os resultados foram dramáticos”, disse Patrick Mendes, presidente da rede francesa de hotéis Accor.

Em meio à crise, o setor está tentando negociar a extensão da Medida Provisória 936, que permite suspensão de contrato de trabalho, além de redução de salário e jornada, por mais 120 dias. “Temos necessidade de extensão da medida. Estamos pedindo 120 dias a mais para que possamos preservar os empregos e manter a atividade viva. Se não tivermos mais ajuda (do governo), muitas empresas não vão conseguir atravessar essa crise”, afirmou o executivo.

Os hotéis também buscam se reinventar nesse momento difícil. Em uma das unidades Ibis da capital paulista, os quartos serão transformados em uma espécie de escritório de uso temporário. “Retiramos a cama do quarto e oferecemos um escritório, com café, croissant e serviço de quarto disponível”, disse Mendes. A novidade deve se espalhar pelo país, em breve.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Pouco antes da epidemia de coronavírus chegar ao Brasil, o setor de turismo havia voltado aos níveis de ocupação pré-crise. Como está a situação atual dos hotéis? Até o fim de fevereiro, estávamos com um crescimento muito bom comparado aos outros anos. Em março, com a pandemia, teve uma queda bastante súbita. Operamos em 110 países. Em cinco dias, tivemos aqui um condensado do que aconteceu em cinco ou seis semanas em outros países. O volume de negócio caiu de 80% a 90% a partir da segunda quinzena de março. Estamos com 300 hotéis fechados, dos 400 que temos aqui na América do Sul. No Brasil, são 270 de 330 hotéis fechados.

Como está sendo essa reabertura na Ásia? Temos cerca de 400 hotéis na China que ficaram fechados por seis a sete semanas. A reabertura aconteceu de forma positiva, principalmente na rede Ibis. A demanda é comercial, de visitas familiares e lazer. Na semana passada, estávamos com 80% de ocupação em resorts na China e na Coreia do Sul. E vamos aproveitar esses protocolos dessas aberturas no Brasil.

As companhias aéreas estão discutindo um pacote de ajuda com o governo federal. O setor de turismo também está em discussão para ter um pacote parecido? Para o turismo, a crise foi dramática. A queda das diferentes atividades está acima dos 80%, chegando a 100% em alguns casos. Nesse sentido, Medida Provisória 936, que permitiu suspensão do contrato e redução de salário e jornada, ajudou o setor. O problema é que essa MP para dois a três meses, não vai ser suficiente. Vamos precisar de uma extensão. Outra medida importante que estamos negociando é capital de giro. Estamos negociando crédito a custo aceitável e também o adiamento de pagamentos de impostos e de custos como eletricidade.

Como está a situação da equipe? A maioria está com os contratos suspensos? Na sede, temos cerca de 500 pessoas – e desligamos entre 10% a 15% dos trabalhadores. Contando os hotéis, temos 20 mil colaboradores na América do Sul, sendo quase 15 mil nessa situação. Nessas operações, o desligamento foi de 20% a 30%. E o resto foi conservado graças à MP 936. E precisamos dessa extensão da MP para preservar os empregos e manter a atividade viva. Se não tivermos ajuda, muitas empresas não vão conseguir atravessar esse período.

O home office cresceu na pandemia. Como isso pode prejudicar a demanda do turismo de negócios? É um ponto de preocupação. As pessoas não vão fazer uma viagem de um dia para uma reunião, com certeza. As viagens vão ser feitas uma vez ao mês, ou a cada dois meses, e a pessoa vai ficar três dias. Lançamos nesta semana uma oferta em que transformarmos alguns apartamentos de nossos hotéis em escritórios. Começamos por São Paulo. Estamos desenvolvendo uma oferta em que disponibilizamos um andar do hotel em que retiramos a cama do quarto e oferecemos um escritório, com café, croissant e serviço de quarto disponível.

Ou seja: é necessário reinventar o hotel e achar outras formas de atrair as pessoas? A demanda internacional vai diminuir drasticamente nos próximos 18 meses por fatores como bloqueios de fronteiras e medo. Além disso, o dólar e o euro estão muito baixos. O brasileiro não vai poder viajar para fora e também não vamos receber tantos turistas estrangeiros. Mas a demanda do brasileiro que viajava para Miami ou Paris vai se transferir para o Brasil.

Como deve ser a retomada da demanda dos hotéis? Deve começar pelas bandeiras de mais baixo custo, como Ibis? No Brasil, temos 16 marcas em operação e 330 hotéis. A retomada do segmento econômico vai ser mais rápida. Primeiro porque o custo de operação é mais baixo, e você consegue com 25% de operação chegar a um patamar aceitável de rentabilidade. Vai começar com negócios e visitar familiares, como ocorreu na China. Nós vemos também o desejo das pessoas de viajar a lazer – é impressionante. Temos uma análise das buscas das pessoas na internet, e existe uma frustração hoje sobre esse tema. As pessoas vão querer viajar imediatamente, primeiro de carro e depois em trechos aéreos nacionais. A dúvida entre abre e fecha da economia é grande.

O governo federal quer a abertura rápida, e os governos estaduais são contra. Isso atrapalha? Na China, foi um confinamento muito pesado de seis ou sete semanas – foi muito rígido durante pouco tempo. Depois liberaram, mas implementando protocolos rígidos de uso de máscara, álcool em gel e distanciamento. Isso ajudou e a economia está retomando. Os consumidores se adaptaram bastante bem. Na França, a economia começou a abrir no dia 11 e os hotéis vão abrir a partir de junho. Temos muitas dúvidas sobre as regras de desconfinamento. Mas a indecisão atrapalha. Qualquer que seja a decisão, ela tem de ser perene.

O Brasil passa por uma crise sanitária e econômica, mas também por uma crise política? Como é explicar para a matriz essa briga no País em meio à pandemia? É impossível explicar. Mas há muito problema similar em outros países. Na França, por exemplo, o governo mandou abrir as escolas – e os prefeitos não querem. Estamos habituados a atuar em vários países com complexidades políticas e econômicas. É difícil, mas não limita o nosso interesse no Brasil, até porque nosso compromisso é de longo prazo.

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