Exatamente um ano atrás, no dia 25 de janeiro de 2019, próximo à hora do almoço, rompeu-se uma barragem de rejeitos de minério de ferro na Mina Córrego do Feijão, estrutura gerida pela Vale em Brumadinho (MG).

O impacto foi colossal: devastação ambiental e a morte de 270 pessoas (11 ainda não foram encontradas), entre os quais funcionários da mineradora, moradores das imediações e até hóspedes de uma bela pousada . Gigante brasileira, a Vale chega a um ano da tragédia envolta em um esforço para se adequar às exigências ambientais e retomar seu nível de produção, ainda às voltas com a Justiça e as investigações sobre a tragédia.

Vista da barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho

Vista da barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho
Crédito: Washington Alves/Reuters

A empresa

A quebra da barragem de Brumadinho foi recebida com impacto pela Vale. No pregão seguinte, na segunda-feira (28/01), as ações da empresa caíram 24,52% em uma única sessão. No mesmo dia, a mineradora anunciou a suspensão do pagamento de dividendos e bônus aos seus acionistas.

Na esteira da interrupção de produção e da necessidade de pagar indenizações e auxílios emergenciais, a Vale reportou um prejuízo nos dois primeiros trimestres de 2019. A coisa começou a mudar nos dados de julho a setembro, com a empresa voltando a lucrar e reportando aumento nas vendas e um lucro líquido de R$ 6,5 bilhões. O balanço do último período do ano será divulgado em fevereiro e dará um indicativo de se o custo financeiro da tragédia foi de fato superado.

A recuperação rápida, segundo relatório da XP Investimentos, está muito associado ao fato de que a mineradora vinha em um “plano assertivo de desinvestimentos e corte de custos” nos últimos anos, o que a permitiu ter “uma situação financeira sólida”. Quem apostou nas ações da empresa na baixa hoje comemora: valorização de mais de 25%, retornando ao patamar de cerca de R$ 55 pré-barragem (R$ 53,10 em 24/01/2020).

De acordo com a mesma avaliação da XP, os papeis da mineradora ainda devem subir mais nos próximos meses. A corretora estabeleceu em dezembro um preço-alvo de R$ 64 para as ações. Os riscos, no entanto, são os mesmos: “barragens de rejeitos, principalmente as do método de construção a montante”.

Mineração

Após a tragédia de Brumadinho e seu impacto ambiental e de imagem para a empresa, a Vale se apressou a anunciar que iniciaria o procedimento para descaracterizar todas as barragens do tipo no Brasil. Iniciado em 2019, esse processo só será concluído após 2022. A construção de estruturas de contenção está prevista para terminar neste ano.

Barragens de alteamento a montante, como a que se rompeu, são estruturas que vão sendo gradualmente ampliadas conforme vão se enchendo. Para colocar novos “degraus”, é utilizado o próprio rejeito do minério como base de fundamento. É um método mais barato, mas não o mais seguro.

No momento em que o desastre completa um ano, a Vale mira retomar a produção que tinha até o dia da tragédia. A regulação mais rígida por parte das autoridades impactou diretamente a produção de minério de ferro da empresa, reduzida em cerca de um quarto. A meta da empresa deve ser atingida entre o final deste ano e 2021.

Para a economia brasileira, trata-se de um fator importante. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a mineração, que tem a Vale como protagonista, responde por 4% do PIB e 21% do comércio exterior do país. No ano passado, a redução da produção de minério fez com que a atividade econômica dos transportes ficasse abaixo de 2018, ano em que houve a greve dos caminhoneiros.

Consequências jurídicas e sociais

A quebra da barragem de Brumadinho e as responsabilidades por ela são desde o primeiro momento investigadas em diversas frentes, o que provoca até uma disputa de competências entre autoridades federais e de Minas Gerais pela responsabilidade do caso.

Não houve condenação até o momento. No ano passado, a Polícia Federal fez uma primeira denúncia, acusando sete funcionários da Vale e seis da empresa alemã de certificações Tüv Süd, além das próprias companhias, de falsidade ideológica nos atestados de segurança da estrutura.

Na esfera federal, a PF ainda conduz um segundo inquérito, sobre as mortes e os delitos ambientais. O ponto desta segunda investigação é precisar as causas do processo de liquefação, quando as substâncias adquirem caráter líquido, o que provocou o despejamento dos rejeitos. A partir de uma conclusão sobre isso, os investigadores federais pretendem precisar as responsabilidades de cada ator e empresa.

Entre as autoridades locais, o caso está mais avançado. Nesta semana, o Ministério Público de Minas Gerais apresentou uma denúncia contra as duas empresas e 16 de seus executivos, incluindo o ex-presidente da Vale Fábio Schvartsman. A acusação da Promotoria é por homicídio doloso. Em coletiva, os promotores argumentaram que Vale e Tüv Süd se uniram para omitir da sociedade e de seus investidores os reais riscos envolvidos na operação.

Até este momento, a Vale informa pagar indenizações emergenciais a mais de 106 mil pessoas, ter firmado 723 acordos de indenização, com 2,3 mil beneficiários, e outros 516 acordos de indenização trabalhista, com mais 1,5 mil beneficiários. Em seu balanço do terceiro trimestre, a Vale estimou o impacto financeiro da tragédia até aquele momento em R$ 24 bilhões.

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