A pandemia de coronavírus desacelera um dos motores de crescimento mais confiáveis da economia brasileira devido ao impacto na demanda de consumidores, segundo um conjunto de indicadores do setor de varejo.

Em março, a redução do consumo foi generalizada, desde compras de maior valor, como veículos, a itens mais baratos, como alimentos e bebidas, segundo a Serasa Experian, acrescentando que as quedas gerais foram as maiores em décadas. Com isso, os dados do varejo divulgados pelo IBGE na terça-feira, que mostraram aumento das vendas em fevereiro, já são coisa do passado.

Desde meados de março, a pandemia afeta os gastos dos consumidores, que respondem por cerca de dois terços do PIB. As vendas no varejo impulsionaram o crescimento econômico no passado em meio ao maior acesso ao crédito, bem como pela expansão e confiança da classe média. Agora, a crise fecha o comércio e bares e agrava o já alto desemprego.

“Com as pessoas ficando mais em casa e muitas lojas físicas fechadas, cai automaticamente o consumo de itens, principalmente os não essenciais”, disse Luiz Rabi, economista da Serasa Experian.

Já se foram os dias em que eletrônicos e televisores desapareciam das prateleiras enquanto as vendas no varejo registravam ganhos anuais de dois dígitos. Embora não tenha sido tão vibrante quanto no início da última década, o consumo mostrou força em 2019, com uma sequência de sete aumentos mensais seguidos das vendas no varejo, impulsionadas pelos cortes da taxa de juros.

Ainda assim, o surto do vírus, que matou mais pessoas no Brasil do que em qualquer outro país da América Latina, derrubou a confiança do consumidor em março para o nível mais baixo desde que o país emergiu da recessão no início de 2017. As vendas de veículos caíram para o menor patamar em dois anos, segundo dados da Anfavea divulgados na segunda-feira.

O indicador de atividade do comércio da Serasa Experian registrou a maior queda mensal em março desde que os dados começaram a ser coletados em 2000. Dados levantados pela Cielo mostraram que as vendas nominais no varejo caíram 22,4% no mesmo período, em meio à queda de 47,8% em serviços como viagens e baixa de 36,1% em bens duráveis, como roupas.

‘Apenas adivinhação’

A Marisa é uma das muitas varejistas de roupas que sentiram a queda repentina da demanda do consumidor. A empresa registrou queda de 50% no tráfego das lojas abertas, disse o diretor financeiro Adalberto Santos durante teleconferência do balanço realizada pouco antes de a rede fechar temporariamente todas as unidades.

Ao ser questionado sobre as previsões de vendas para 2020, Santos disse que fazer previsões em meio a tanta incerteza é difícil. “Qualquer número ou qualquer coisa que dissermos será apenas adivinhação”, segundo transcrição da teleconferência. “Por isso, prefiro não dizer nada.”

De fato, enquanto as estimativas de crescimento para 2020 acima de 2% eram quase consenso em janeiro, bancos como JPMorgan Chase e Bank of America Merrill Lynch agora projetam retração entre 3% e 4% do PIB. O Ministério da Economia não prevê crescimento este ano.

Para complicar, a ajuda do governo aos trabalhadores em meio à crise é lenta, segundo Adriana Dupita, economista para a América Latina da Bloomberg Economics. Considerando a menor renda dos trabalhadores e o fechamento de lojas, não há como evitar um impacto direto no consumo nos próximos meses.

“Mesmo que as pessoas pudessem fazer compras, não teriam dinheiro para pagar”, disse Adriana. “Todos os indicadores coincidentes apontam para uma queda de dois dígitos das vendas no varejo em março, e o cenário é ainda mais sombrio para abril.”

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